Fui estuprada dentro do carro dele – 2027

  • TRIGGER WARNING – relato de estupro –

Conheci ele numa festa da USP. Estava bêbada, mal conversamos e ficamos a noite toda. Na madrugada, me convidou para ir ao carro dele. Fui. Era uma experiência nova. Minha primeira vez. Achava que não tinha nada a perder. Me enganei. No carro, percebi que ele havia me enganado e não tinha colocado camisinha. Na hora fiquei brava, mas deixei passar. Passados alguns minutos, percebi uma movimentação do lado de fora. Uns três amigos dele observavam tudo pela janela. Um tinha sentado no banco do passageiro e me olhava de um ângulo privilegiado. Gritei. Os amigos saíram correndo. Ele me segurou. Me manteve ali e tentou continuar. E conseguiu. Reuni as forças que eu tinha e o empurrei, da melhor maneira que pude. Reuni minhas coisas e saí do carro, humilhada. Não sem antes ser puxada de novo pelo braço, com muita força. “Não fica assim, linda, eu não sabia que eles estavam aqui”. Não me lembro do que disse para ele, mas acho que foram xingamentos. Nessa hora eu já chorava e ele me apertava com força. No dia seguinte estava cheia de hematomas no braço. Não me lembro do que aconteceu depois, só sei que era madrugada e saí andando em direção ao P1. Nessa época o circular não passava nesse horário. Liguei para o meu melhor amigo e pedi que viesse me encontrar. Contei para ele, da melhor maneira que pude, omitindo tudo aquilo que me fazia mal. Foi quando o carro apareceu. Cheio de homens. Desacelerou e, de uma janela aberta, me gritaram: “VADIA!”. Desabei de novo. Desabei mil vezes. Por dentro, por fora, por todos os poros, eu era só dor. Não sabia nomear, não sabia explicar, só me senti fraca e inútil. Fiquei achando que a culpa era minha. Encontrei com uma amiga no dia seguinte e tentei contar para ela o que tinha acontecido. Por medo de ser julgada, omiti algumas partes, amenizei, pintei com cores mais bonitas e ela me disse “nossa, também queria viver uma aventura dessa. Vale a experiência”. Me calei depois disso. Me calei por 4 anos. Nunca mais toquei no assunto, e, quando ele surgia (“lembra quando você ficou com aquele cara e os amigos dele quiseram ver?”), eu ria junto, fingia que não tinha sido nada e morria por dentro. Eu demorei anos para entender que isso tinha sido um estupro. Hoje estou no 6o ano e nunca mais confiei plenamente num homem.Na época, não havia um coletivo feminista. Não senti que havia uma rede de apoio, pessoas que poderiam me ajudar. Também não sabia que poderia denunciar. Na minha cabeça, a culpa era minha do começo ao fim. Se hoje tenho mais controle sobre a minha sexualidade, é porque, no meu desespero, encontrei o feminismo pela internet e ele mudou a minha vida. Agora eu sei nomear o que eu passei e sei que não estou sozinha. Ainda não consigo falar abertamente sobre o que aconteceu com pessoas próximas, mas acredito que um dia as palavras “fui estuprada” vão sair da minha boca sem serem acompanhadas por lágrimas e vergonha. É um processo.