Em um show lotado tive meu corpo tocado várias vezes por um homem – 2067

TRIGGER WARNING – Contém relato de estupro.

Sempre que entro aqui começo a ler e reler alguns relatos e, assim, infelizmente, lembro dos muitos que passei. Esse eu tinha travado por completo, me lembrei lendo um relato aqui. Perdi o sono. Fiquei pensando o dia todo em como escrever. Talvez parte desse pesadelo relembrado seja por causa do auê todo em cima do, ainda não confirmado oficialmente, show do David Gilmour aqui em Curitiba, na Pedreira Paulo Leminski.

Desde os meus 10 anos meu sonho era ir num show grande na Pedreira. Nunca esqueci de como tinha panfleto fazendo propaganda do AC/DC vindo pra cá. Quase uma década depois disso, o Pearl Jam anunciou sua primeira turnê brasileira e um desses shows aconteceria aqui, em novembro de 2005. Eu fui, aos 19 anos. Presenciei lá muita coisa escrota. Seguranças só davam água para as meninas mais arrumadas e com roupas mais justas e, não importa como fosse o corpo ou rosto, se subisse no ombro de alguém, jogavam as pedrinhas do chão numa tentativa horrorosa da menina se machucar e não tentar isso novamente. Caso isso não bastasse, gritavam: “Desce daí, gorda!”. Eu era gorda. Me sentia envergonhada. Não eram xingamentos feitos diretamente a minha pessoa, porém me atingiam, como se fossem aquelas pedras tacadas nas meninas.

Após essa péssima experiência, fiquei morrendo de medo de voltar lá novamente e, ao mesmo, curiosa porque o show do Pearl Jam tinha sido incrível. Algumas pessoas que foram nele é que não eram incríveis.
Decidi dar uma nova tentativa alguns anos depois… decidi ir na turnê do Iron Maiden em março de 2008. Já com meus 22 anos recém-completados, me senti mais segura de mim. Achei que sabia o que fazer, como fazer, o que aconteceria, o que não aconteceria, o que evitar e como evitar. Como sempre, a vida vem e te dá um tapão na cara. Havia outras opções de acontecimento que não havia calculado e relatarei a partir de agora:

Cheguei lá de manhã bem cedo para garantir entrar e ficar, ao menos, perto da torre central porque eu tinha certeza que ia lotar muito mais do que no show do Pearl Jam, ou seja, não ia conseguir me mexer nem que quisesse. Eu estava certa. Durante o dia todo foi tudo normal, apenas aquele cheiro medonho de maconha que nunca cessava, muito bêbado e nada de seguranças dando água agora, tudo era pago.

O show começou quando todo mundo já estava extremamente cansado, mas era um show tão esperado e, por ser na Pedreira, todo mundo tirou a energia de algum lugar para curtir. Tudo indo bem até que começaram com suas atividades normais… ou seja, pular, empurrar, a famosa roda de pogo que sempre tem. E, como também é normal, as pessoas que não gostam e começam a se afastar indo cada vez mais para os lados ou para trás para tentar se proteger e fugir do tumulto causado. Quanto mais isso ia acontecendo, ainda no começo do show, menos você ia podendo se mexer. Não tinha como se manter parado e não tinha como evitar ser levado. Se levantasse o braço não tinha espaço para baixar e se abaixasse não conseguia levantar. Já comecei a me sentir apavorada porque pensei: “Bom, se eu cair, vou ser pisoteada e ninguém vai ter como fazer nada porque não tem espaço nem pra peidar, quanto mais tentar me levantar”.

Conforme foram empurrando, empurrando e empurrando, de repente percebi que tinha chego até a torre central. Atrás de mim estava um homem adulto. Acredito que era um pouco mais velho que eu, mas não chegava aos 30. Cabelo curto, como de praxe lá estava com uma camiseta da banda, não muito mais alto que eu (Tenho 1.76 cm), cabelo castanho claro e olhos claros. Ele disse: “Cuidado se te empurrarem de novo porque estou atrás”. Olhei para ele rindo e falei: “Bom, não tenho controlar uma multidão, mas, qualquer coisa, me desculpe”. Ele sorriu. Virei o rosto para frente para continuar assistindo o show. Como já estava normal, muito empurra-empurra, pisão no pé, levei algumas cotoveladas. Até aí achei “normal” devido a situação. Eis que, de repente, sinto mãos na minha cintura. Apertando. Apertando de novo. Me puxando pra perto. Era ele. Tentei ir pra frente sem sucesso, pois não havia espaço. Tentei tirar as mãos dele e não conseguia mover meus braços. Dei uma cotovelada porque para, pelo menos, balançar o braço para frente e para trás ainda estava sendo possível. Ele soltou. Voltou o empurra-empurra. A situação foi tão tensa que não percebi de primeira, mas quando a situação se acalmou ele estava apertando minha bunda. Estando ainda mais esmagada que antes não conseguia me movimentar nem sequer para olhar para o babaca. Comecei a “encolher” o bumbum, apertando para dentro. Não funcionou. Ele tinha as mãos livres e eu não. Acabei me conformando com a situação e pensei: “Na primeira chance que tiver vou dar o fora daqui”. Foi pensar nisso, voltou o empurra-empurra.

Eu já estava extremamente mal-humorada, me sentindo abusada mais uma vez, como aconteceu num outro show, do Nazareth, na Hellooch, no anterior quando ocorreu a gravação do DVD deles aqui no Brasil, porém naquele local e naquele dia estava tranquilo se mover, tanto que assim que isso aconteceu eu pude me virar e ficar encarando o abusador até ele sair dali. Mas não nesse show. Na Pedreira, no show do Iron Maiden não. Não dava. Não me entenda mal, eu adorava show de rock. Eu adorava ver todo mundo se divertindo ouvindo rock. Adorava. Eram somente algumas horas, porém eram horas em que eu esperava diversão, que esperava que fosse me divertir não que fossem se divertir às minhas custas.

Enquanto desejei imensamente que abrissem espaço para eu poder fugir, de repente percebi que as mãos do cara tinham subido. Ele estava me abraçando e tentando apertar meus seios. Aquilo foi a gota d’água. Comecei a gritar: “ME TIREM DAQUI!”. De repente, as pessoas começaram a me puxar. De alguma forma, me empurraram até a parte de trás do show, onde estava tudo, praticamente vazio. Não chorei. Virei o rosto em direção à saída e não olhei para trás. Saí e sentei no chão, perto das catracas. Fiquei pensando em como pude deixar um momento desses destruir o show. E o dinheiro jogado fora num show que nem vi inteiro. Peguei minha mochila na loja da frente que estava com um guarda-volumes. Peguei o primeiro ônibus que encontrei, desci no Shopping Estação e peguei um táxi até a minha casa. Paguei o táxi, respirei fundo, toquei o interfone pro porteiro abrir. A porta abriu. Ele abriu a porta pro elevador. Entrei no elevador, apertei meu andar, subi, abri a porta do elevador, abri a porta da minha casa, entrei em casa, fechei a porta e tranquei tudo. Estava em segurança, finalmente.

Aí fiquei até o amanhecer tomando banho. E eu que tinha parado de fumar acendi um cigarro que achei escondido. Estava precisando. Não dormi. Entrei na internet e fui me distrair nas comunidades do finado Orkut.
Fiquei me perguntando se escrevia sobre isso e postava com algum fake na comunidade feita para o show, na comunidade específica da banda, na comunidade da cidade de Curitiba, na comunidade do local do evento. Não fiz. Nem sabia por onde começar.
A vida seguiu.

OBS.: Leram quando falei que adorava show de rock? Adorava porque depois desse episódio só fui na turnê do The Wall do Roger Waters, em São Paulo, em que nada de errado me aconteceu. Será que é o estado? Será que são os fãs? Será que é a estrutura do local? Será que a culpa é minha por estar de calça larga, tênis e camiseta em todo e qualquer show de rock que já fui? Será que reclamo demais? Será que se eu tivesse falado antes a banda teria tentado conscientizar os fãs sobre esse tipo de atitude? E a Prefeitura de Curitiba? E os organizadores do evento? E surtiria efeito? E agora, surtirá?