327

327 –   “É engraçado como às vezes a gente até tem marcas desse tipo desrespeitoso de assédio e o deixa ali, guardado no subconsciente até passar a ler relatos semelhantes. Eram “coisinhas” que iam se acumulando com o passar dos anos sem perceber.  Creio que tinha uns seis anos (!) quando entrei em contato com esse desrespeito. Lembro-me de ir à mercearia na esquina de casa comprar alguma coisa. Não me lembro se estava com meu pai ou minha mãe. Só me lembro daquele homem mais velho, de bigode, mais velho que meu pai, até. Na época eu usava uma blusinha que deixava meu umbigo à mostra – e criança lá tem malícia com roupa?  O homem estava sentado diante do balcão e sorriu pra mim, de cima, mas dava pra perceber que não era um sorriso gentil… vocês devem conhecer a sensação ruim que esse tipo de sorriso dá. E senti aquele dedo gelado no meu umbigo.  Pode parecer pouca coisa (talvez até pensem que eu esteja exagerando), não sei; mas o fato é que foi uma coisa tão ineditamente invasiva que entrei em pânico (sempre fui uma menina “na minha”, não muito habituada a toques de estranhos). Não me lembro muito bem do resto (acho que corri pra perto da pessoa que estava comigo… lembro que ele riu do meu susto). Engraçado como a memória funciona: não me lembro de mais nada daquele dia, apenas do homem me tocando e rindo do meu pavor. Só sei que nunca mais (até hoje) usei roupas que expusessem meu umbigo. Não conheço uma outra explicação possível… só sei que aquela foi a última vez. Até biquínis me deixam desconfortável.  Acho que eu devia ser uma garota “interessante” pra esse tipo (nojento) de homem. Lembro-me de um namorado da minha mãe que tentava passar a mão em mim “de brincadeira” e ria por eu ser arisca a essas investidas. Minha mãe não ligava, achava engraçado, não via nada de mais.   Uma vez esse mesmo homem disse, em alto e bom som, que adoraria ver a mim e a uma das filhas dele numa luta na lama (acho que passava no Gugu na época, com mulheres de biquíni se engalfinhando na lama). Eu me lembro direitinho dessa cena. Acho que eu devia ter uns 8 anos na época (no máximo 10). Senti nojo e manifestei isso, mas os outros riam…  Quando eu tinha por volta de 15 anos, outro namorado de minha mãe me fez passar por uma situação extremamente tensa. Minha mãe trabalhava e, durante esse tempo, eu ficava na casa de parentes; no entanto, precisava fazer um trabalho no computador e para isso precisaria ficar em casa.  Era noite quando ouvi a porta de casa se abrir: o namorado dela tinha a chave (por sinal eu SEMPRE trancava o meu quarto. Minha mãe permitia que o namorado entrasse quando quisesse, às vezes até de madrugada). Ele me viu ali, sozinha diante do computador na área social da casa, e se aproximou com uma conversa displicente… mas você SABE que a pessoa não está bem-intencionada. Você sente no olhar, no tom de voz, no sorriso, na forma como ele vai se aproximando de você. Eu estava muito tensa e não respondia a nada do que ele dizia, tentando ignorá-lo.  Ele me perguntou se eu estava sozinha. Como não obteve resposta, pareceu ter entendido que sim. Lembro-me de ele fazer menção de se sentar comigo quando meu avô, que estava no quarto, chegou. O homem ficou sem graça, cumprimentou-o e se afastou. Disse que tinha ido pegar não sei o quê e foi embora.  E eu nunca gostava do jeito como ele me olhava, como ele agia, como ele falava comigo, mas minha mãe achava que era implicância ou até mesmo (talvez) inveja. Uma vez chegou a gritar comigo no meio da rua, em frente a uma loja no centro da cidade, porque eu censurava a forma como ela se dedicava cegamente a ele (inclusive fazendo dívidas absurdas pra um simples presente de Dia dos Namorados e prejudicando nossas finanças; ou lavando as roupas dele) e não me escutava. Dizia que eu agia daquela forma porque não tinha namorado e não sabia como era… não tinha talento/competência pra isso, “ou vai ver é sapatão, por isso não arruma nada”. Cheguei a sentir ganas de agredi-la, mas me contive e saí andando apressadamente, sozinha.  Já fui assediada na rua, claro, e inclusive perseguida (outro dia conto o relato). Mas quis expor esses relatos da minha infância/adolescência (ainda que algumas tenham sido em “recanto doméstico”, o que pode soar meio fora do escopo da página) por dois motivos principais.   Primeiro como um alerta às mães, pais, tios e avós: ACREDITEM MAIS NAS SUAS CRIANÇAS. Deem ouvidos ao desconforto delas. Muitas delas se fecham por vergonha ou receio, e as poucas que se dispõem a contar (como eu com minha mãe) nem sempre são levadas a sério. Não importa se é uma tentativa violenta ou se é “só uma carícia inocente no bumbum”. A criança precisa se sentir segura, e se ela, mesmo em sua inocência, sente algo errado naquilo, precisa confiar que alguém poderá fazer isso parar. Um adulto bem-intencionado, se chamado à atenção, irá parar com esse comportamento desagradável. Se for mal-intencionado, saberá que existe gente de olho e se retrairá.  Acho impressionante e até assustador ver mães e pais inventando desculpas para justificarem as denúncias de seus filhos (sim, meninos também). Às vezes a vítima chega ao cúmulo de ser vilanizada – “Criança tem muita imaginação”, “Ela quer que eu me separe dele porque está interessada no meu namorado” (quando a vítima é mais crescida), “Ela está mentindo porque não gosta dele”… mães colocando a culpa nas próprias filhas pelo assédio de seus parceiros! É horrível a sensação de não poder confiar na sua própria família, que devia ser seu porto seguro!  E o segundo motivo (mais especificamente no meu relato de 15 anos) porque sempre vemos casos de garotas/mulheres assediadas por pessoas de seu próprio convívio, infelizmente. Como já vimos aqui na página, nem sempre o potencial estuprador é um desconhecido que te acha na rua. Então uma coisa que eu sempre digo é: CONFIE NOS SEUS INSTINTOS. Pode parecer algo básico e até meio idiota… você às vezes pode pensar que está enxergando coisa onde não existe nada. Mas na dúvida, não confie.  Não duvide do seu próprio desconforto: muitas vezes nosso subconsciente (através da linguagem não-verbal do outro, por exemplo) PERCEBE que há algo errado na atitude do outro. Se você “não vai com a cara” de alguém que tenta forçar uma aproximação, corte. Eu mesma tive sorte em não estar sozinha em casa, pois não sei como reagiria ao assédio – hoje, fora da cena, eu diria “ah, eu resistiria, não deixaria, lutaria”, mas naquela hora eu tinha travado, podia (DEVIA) tê-lo cortado desde o começo mas não o fiz por medo de estar “vendo coisas demais” naquela aproximação. Não tenha medo de estar “exagerando” ao rechaçar a aproximação do seu amigo, colega ou o que for.  Infelizmente não somos levadas a sério porque estamos “exagerando”, porque foi “só um elogio” ou “só um abraço”. Desde crianças nosso poder de decisão, nosso direito de “não gostar”, nosso direito de DIZER NÃO é colocado de lado. Vejo tantos relatos nesta página de gente assediada na rua aos dez, doze anos… criança que nem seio tem ainda! Como acreditar que uma criança de seis anos QUERIA ser tocada ao usar blusinha curta com estampa infantil? Que foi a criança (que fui eu…) que provocou?  Crescemos acuadas com essa VIOLÊNCIA (verbal e às vezes até mesmo física) e ainda somos obrigadas a achar que “foi só um elogio”, “só uma demonstração de carinho”. Enquanto isso as marcas vão ficando…  Peço desculpas se o relato ficou confuso… vou confessar que dói relembrar algumas coisas. Os homens, a descrença da minha mãe…  “