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332 – “Ontem, estava voltando do centro da cidade de ônibus, em horário de pico. O coletivo estava, naturalmente, cheio, mas não estava lata de sardinha. Eu estava em pé e um homem de roupas normais (calça jeans e camisa social), com mochila na mão e exalando leve cheiro de álcool se posicionou atrás de mim e começou a tentar me encoxar. Qualquer uma sabe a diferença de uma pessoa encostar aleatoriamente, em função do balanço do ônibus, de uma encoxada. Eu poderia ter feito como muitas mulheres e esperado a merda passar, mas não. Encarei-o firmemente até ele sair de traz de mim. Ele saiu. Eu estava em pé ao lado de um assento único, naquele corredor que se forma ao lado da catraca. A moça que estava na minha frente desceu do lugar e o mesmo cara jogou a mochila no lugar e sentou-se na minha frente. Eu em pé, apoiando no assento a frente e ele começou a ‘procurar’ minha mão no encosto e depois começou a ir me encostando com o pé, do tipo, eu me apoiava, ele vinha com a mão encostando na minha mão, eu mudava minha mão de lugar e ele fazia a mesma coisa. E me encarando ostensivamente, com leve cara de deboche. Ele estava obviamente me provocando e tentando me intimidar. Então eu resolvi utilizar da mesma moeda. Um rapaz tinha pedido para segurar minhas sacolas, nas quais eu levava uma caixa de mdf grande. Peguei a caixa de volta. Como eu estava em pé, levei por alguns quarteirões a caixa bem na cara dele, de modo que ficasse claro que qualquer virada do ônibus ou freada eu poderia tacá-la na cara dele, mas fiz questão de não encostar nele, no melhor estilo de violência psicológica. Respondi a intimidação dele com intimidação. Sei que muitas pessoas (diga-se homens, não acostumados com o assédio), ao lerem esse relato, me acharão exagerada ou com mania de perseguição, mas qualquer mulher assediada mais de uma vez no ônibus sabe reconhecer encoxadas e toques propositais.”