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343 – “Uma coisa engraçada é que nem precisa estar dentro de padrão estético pra receber cantadas, basta ser mulher. Já aconteceu de eu receber elogios (elogios mesmo). Umas semanas atrás, por exemplo, um homem olhou pra mim e disse para a amiga: “Olha como ela é bonita”. Não fez aquela cara nojenta que toda mulher conhece. Não fez aquele barulho escroto de sucção. Não fez fiu fiu. Não me encarou somo se eu fosse a primeira mulher que via na vida dele. Só disse que eu era bonita e continuou vivendo a vida dele enquanto eu fazia o mesmo. Isso é ok, é mesmo, de verdade.  Por outro lado, faz muitos anos que homens escrotos começaram a marcar presença na minha rotina. Já aconteceu de um homem velho olhar pra mim com malícia quando eu tinha uns 9 anos; eu não percebi, mas meu pai, um cara grande, percebeu e gritou com o cara e o xingou de tudo quanto possível. Ponto pro meu pai. Mas meu pai não anda comigo nas ruas todos os dias, não tem como. Não tinha um cara grande do meu lado quando um cara estava lavando o carro e apontou a mangueira pra mim e pra minha amiga quando tínhamos 12 anos. Nem quando um homem cortou meu caminho pra passar a mão no meu cabelo e me fazer sentir o mau hálito dele. Nem quando um cara parou a bicicleta do meu lado e ficou me falando dos meus atributos físicos como se eu não tivesse espelho em casa. Também não tinha quem me acompanhasse quando um cara parou do meu lado e abriu o zíper da calça dele no metrô. Na maioria dessas vezes (e foram muitas) eu apenas me afastei, continuei andando ou permaneci calada e ignorando essas pessoas, mas num dado momento a gente aprende a reagir. Uma vez, numa boate, um cara me agarrou pela cintura — em troca recebeu um tapa. Quando ele parecia que ia revidar, havia pessoas ao redor, então nada aconteceu. Numa outra boate (num aniversário, o único tipo de ocasião em que eu costumo frequentar baladas), um cara fez o mesmo com duas amigas minhas, uma seguida da outra. Uma delas usou a desculpa de que tinha namorado (como se o fato de ela ter “dono” impedisse um babaca de passar a mão nela). Com a outra, eu vi, estava lá, e gritei com ele dizendo que ele não deve tocar uma mulher ou qualquer pessoa desconhecida sem a devida permissão. Isso não o impediu de fazer o mesmo com outras garotas e que eu o visse chamar de vadia uma delas que havia recusado as “investidas” e dito pra ela ir se f*der. Infelizmente eu não tenho força física suficiente pra socar o bombadinho, mas se tivesse teria quebrado o nariz dele. Babaca.”