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344 – “Uma vez eu estava num ônibus pra ir pra escola quando um grupo de homens visivelmente embriagados, talvez de uns cinco, entrou pela porta de trás sem pedir. Deviam estar voltando de uma balada que funciona perto da minha casa. Imediatamente foram expulsos pelo cobrador. Cheguei cedo demais e a padaria perto da escola ainda estava abrindo. As escolas, três uma do lado da outra, estavam fechadas. Numa infeliz coincidência, o mesmo grupo de homens que havia entrado no ônibus que eu peguei apareceu na rua, todos eles com bebidas nas mãos vindo na minha direção. “Oi, gatinha”. Não respondi. “Vem cá, gatinha”. Continuei andando. “Ei, vem aqui!”. Continuei andando, mas os caras bloquearam minha passagem. “Vem cá, vem”, um deles continuou dizendo, ainda se aproximando, e fez o grandessíssimo favor de soltar uma frase que ecoa na minha cabeça toda vez que eu tô sozinha numa rua sem movimento e um homem aparece na mesma calçada que eu: “abre as pernas aí”, ele disse. Não sei como eu consegui, porque eu tinha tanto medo que achei que ia começar a chorar e ajoelhar implorando pela minha vida, mas o que eu fiz foi dizer com toda a força e o restinho de coragem que eu tinha pra que ele não se aproximasse nem mais um pouco, que saísse de perto de mim “AGORA. AGORA MESMO”. Não sei o que ele viram na minha cara, mas eles se afastaram e um deles disse “Vamo, gente, essa aí não tá com medo não”. Acho que eu devia ser atriz, porque esse foi um dos dias em que eu senti mais medo na vida, tanto que eu saí correndo quando achei que eles não iam ver. Eu devia ter chamado a polícia, mas eu tinha uns 14 ou 15 anos e ainda não sabia que podia e devia ter feito isso, também fiquei muito atordoada e não tinha ninguém na hora, tive que esperar mais uns bons minutos até a padaria abrir e eu pegar um copo d’água. Ainda me pergunto se fizeram alguma coisa com outra menina. Mas que raiva!”  Ana