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345 – “Numa rua movimentada, no supermercado, na porta de um prédio residencial, reagir pode ser mais fácil. Mas o que anda acontecendo não é numa rua movimentada. No fim da minha rua, pra esquerda, tem um beco. No final do beco tem uma oficina. Quando vou pro serviço, o cara que trabalha lá não me vê, mas fazendo o caminho de volta, eu entrando no beco ou não (o que eu tento evitar), ele faz questão de me chamar. Isso começou no início de janeiro. Se o cara estiver manobrando um carro, ele para pra fazer “psiu”. Se estiver lustrando um banco de couro, ele para, estica o pescoço, chama “ei”. Não importa o que estiver fazendo, ele para, se contorce pra me seguir com o olhar, chama “ei”, “psiu”, “oi”, “boa tarde, hein, moça”, da um sorrisinho nojento. Se eu passar pela porta sem responder e ele puder me ver pelo portão menor da lateral, volta a fazer “psiu”. “PSSSSSSIU”. Agora, é uma merda que eu seja obrigada a perder uns 10min do meu horário de almoço pegando um caminho mais longo ou que seja obrigada a gastar almoçando fora todos os dias porque tem um babaca que sabe muito bem que eu não sou surda na minha rua. Não acho que possa chamar a polícia nesse caso, nem acho que se chamasse ia ajudar. Não tive ainda a coragem de reagir a uma cantada num lugar onde quase nunca tem gente além do cara. Além disso, uma voz interior fica apontando a minha aparência que perfeitamente se encaixa no estereótipo de lésbica. Tipo, qual é? Eu tenho um moicano, eu vou trabalhar de calça jeans e camiseta. Será que essa minha aparência estereotipada não devia me livrar desse inconveniente? Será que nunca passou pela cabeça dele que eu posso não gostar de homens? Eu gosto também, mas ele podia pensar que não e me deixar em paz. Agora, e se o problema for exatamente o fato de eu parecer uma lésbica? Isso significa que esse babaca tá me provocando porque ele tem que é provar que é gostoso demais pra que exista uma mulher que não goste dele, mesmo que ela seja lésbica? Eu não sei o que fazer. Como é num beco, não sei mesmo. E tô irritada com esse idiota!”  Ana