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350 – “Pode não ser uma cantada, mas é um exemplo claro do machismo.  Eu estava andando para a praia calmamente, vestindo short jeans, camiseta branca e chinelo (não que isso faça diferença, mas só pra provar que não é preciso um super decote ou uma saia curta para que mexam conosco) e totalmente alheia ao mundo, pensativa.   Passei por um cara que estava vendendo água gelada, ele perguntou se eu queria comprar a garrafa e eu respondi normalmente que “não, obrigada”. Continuei andando. Aí um homem que estava a uns dois passos disse para ele com aquele ar nojento de deboche que a gente conhece e como se eu não estivesse mais presente: Ela tá tristinha.   Não foi com pena, não foi querendo ajudar, foi daquele mesmo jeito que os babacas dão “bom dia”, com aquele tom asqueroso de quem acha que tem algum direito sobre você. Como se eles estivessem ofendidinhos com nossa frieza e quisessem nos diminuir na frente de outras pessoas. Vocês sabem como é…  Eu fiquei muito puta, pois em nenhum momento fui grosseira com ninguém. Ora, onde já se viu? Eu agora tenho que abrir o maior sorriso de mundo e agradecer de joelhos a água que estava sendo oferecida (provavelmente a um precinho nada camarada)? Me revoltei, ainda mais depois do episódio que havia acabado de ocorrer no qual eu mais duas amigas quase apanhamos em uma van apenas por não querer conversar após uma noite cansativa de carnaval (depois eu conto esse…)  Enfim, olhei pra trás bem séria e revoltada e soltei: Tô triste mesmo e daí? Eu não tenho que dar explicações sobre a minha vida e o meu humor pra você nem para ninguém! Virei, continuei andando sem pressa e nem ouvi o que me disseram.  Na volta passei pelo mesmo lugar, mais por esquecimento do que afronta, só que dessa vez com fones de ouvido. Meu azar foi que a música terminou bem na hora que o imbecil gritou “Eu marquei a tua cara, hein!”  Não olhei pra trás, não apressei o passo, não voltei e soquei a cara dele. Devia, né? Mas tive medo.”  Júlia