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352 – “Eu tinha 12 anos. E com 12 anos eu era ainda uma criança: não estava pensando em namoradinhos, não me arrumava para sair. Minha vó morava no interior e e eu fui de ônibus, sozinha, para visitá-la. Não era a primeira vez. Eram 7 horas de viagem à noite e lá fui eu, com meu travesseiro embaixo do braço. Ao meu lado, sentou-se um homem nos seus 30 anos, que foi muito simpático comigo. No meio da noite, ele passou rapidamente a mão na minha perna. Achei que pudesse ter sido sem querer. Mas se repetiu. Eu comecei a colocar o travesseiro na minha perna, como que para criar uma barreira entre mim e aquele desconhecido. Ele que anteriormente havia sido tão simpático. Eu me senti invadida, mas minha voz não saia. Não conseguia dizer pra ele parar, não conseguia gritar. A voz simplesmente não saía. Eu fui invadida por uma grande vergonha e eu não conseguia pensar em outra coisa que não fosse no fim da viagem. Ao chegar ao final das longas horas, ele me disse, pouco antes de sair do ônibus que “achava” que tinha “sem querer” encostado na minha perna e pediu desculpas.   Nunca consegui contar isso a ninguém, não por sentir culpa pelo ocorrido, mas por sentir que eu tinha que ter feito alguma coisa. Passei anos querendo me esconder dos homens, com vergonha de usar qualquer roupa que pudesse ajudar a chamar a atenção, um medo de ser desejada, um medo de que se aproveitassem da minha inocência. E isso tudo para evitar essa paralisia assombrosa de ter que dizer que não estão me respeitando, que estão me invadindo, que estão tirando de mim a minha liberdade e que eu não consigo nem gritar.  Acho que só perdi esse sentimento de paralisia anos mais tarde, em um show. Um homem atrás de mim, por duas vezes seguidas se “esfregou” em meu corpo. Na segunda vez, tirei uma força não sei de onde, me virei e falei pra ele “se tu chegar mais uma vez perto de mim, eu vou chamar o segurança”. Ele disse “eu não fiz nada” e eu disse ” então vai fazer nada bem longe de mim”. Ele me olhou com uma cara de espanto, deu meia volta e foi para outro lugar. Senti, naquele momento, que nunca mais eu ficaria paralisada. Então se há algo que eu posso dizer é que temos que encontrar essa força… É ela que nos faz, muitas vezes, superar todas as histórias tristes que passamos. Eu ainda tenho algumas para superar, espero conseguir compartilhá-las algum dia.”