A educação da segregação

Artigo  na Carta Capital

por Paula Campos Pimenta Velloso — publicado 20/11/2013 05:58

“O senhor está se encostando na minha cara!”, disse a mulher sentada a duas fileiras do meu assento. O homem continuou imóvel, em pé ao seu lado. Apenas acrescentou ao desrespeito um sorrisinho e a alegação de que ela, pela idade, não seria mais objeto do seu assédio. Ele não precisava ter dito nada. Pega o Metrô lotado todos os dias, respaldado pelo consenso de que ninguém reagirá quando se esfregar por aí. Mas ela falou alto e firme e ele teve de se virar um pouco.

Da estação Carioca até a Cantagalo, quando o Metrô do Rio assume sua eufemística forma “de superfície”, outros tipos como esse ainda aguardavam muitas outras mulheres. Todas sabemos disso. Por este motivo, me surpreendeu o comentário de uma jovem que disse “essa senhora, eu hein, por que não pegou o vagão das mulheres?”. Eu acompanho a discussão sobre o carro exclusivo do Metrô, a possível implantação em outros municípios, a fortuna de políticas semelhantes em outros países em que o sexismo se apresenta em graus insuportáveis. Mas não havia me dado conta, até aquele momento, de que um preço alto que pagamos por medidas desse tipo é o fato de que elas não educam.
[…..]

Em um vagão de Metrô, é possível ver muito da forma como a dignidade das mulheres continua associada, de forma considerável, à figura do homem. Uma mulher provavelmente não será desrespeitada se for desinteressante para o olhar de um homem – isto é, se for feia, velha ou gorda segundo os padrões de sensualidade. Não estou dizendo que homens ditam, por exemplo, as regras de peso certo, mas que provavelmente não assediarão uma mulher que não se apresentar, aos seus olhos, atraente. Além disso, como vimos, ela poderá ser agredida com este exato argumento. Talvez acompanhada estivesse mais segura. Em todos os casos, entretanto, o eventual respeito não se deve à mulher, mas ao interesse que seu agressor tem por ela, ou à fidelidade de classe que ele manifesta por outro homem.

 

Leia todo o artigo aqui – http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-educacao-da-segregacao-8740.html