Abusos acontecem o tempo todo, apoiem as vítimas – 1053

1053 – Um dia desses estava voltando com umas amigas do bar à noite, algumas iam à frente e eu ia mais ao fundo com uma das meninas. Passamos por uma menina e um cara que estavam encostados às parede. Como observamos e não dava pra saber o que estava rolando ali, perguntamos se estava tudo bem e se o cara tava forçando. O cara ficou em silêncio (o que foi massa, porque ele não tentou responder por ela) e a menina disse: “não, está tudo bem. muito obrigada por perguntar” e sorriu.

Acho importante que: mulheres e pessoas designadas e/ou lidas socialmente como mulheres cuidem umas das outras, e isso ilustra um pouco. Não deixar passar nunca, mesmo que seja só uma suspeita. Defenda, pergunte, nunca dê o benefício da dúvida a nenhum tipo de agressão ou agressor.

[trigger waring de abuso]

Há um tempo uma amiga minha foi abusada pelo melhor amigo. Ela havia dito a ele diversas vezes antes daquele dia que não tinha vontade de ficar com ele e que não ficaria. Um dia ela estava bêbada e ele fez uma abordagem insistente. Ela disse que não, e ele insistiu, mais de uma vez. ela, bêbada, sem condições de consentir “cedeu”. (Talvez essa não seja a melhor palavra. Apenas quero dizer que ela cedeu após coação, e que isso não é consentir. Consentir é quando você pergunta a uma pessoa se ela quer fazer algo e ela diz que sim. Consentir é quando você tenta abordar uma pessoa e ela corresponde ao invés de dizer não).

A questão é que, mesmo com algumas pessoas do círculo feminista, o abuso foi relativizado. Foi relativizado também pela psicóloga dela. Ela teve duas crises histéricas em uma semana porque pensava que estava louca ou imaginando coisas.

Quando ela veio falar comigo, ela disse que sentia nojo de si mesma. Eu disse que ela não devia sentir nojo dela mesma, e que talvez sentisse por imaginar que havia algo do agressor nela, mas que não havia, que o corpo era dela e ninguém deve ter o direito de transformá-lo em algo do qual ela não gosta. O corpo é dela, cada centímetro dele, e não pertence a mais ninguém.

Ela se sentiu melhor depois de conversar comigo e com outros amigos em comum.

Ela publicou dois textos denunciando o abuso no facebook dela. Uns dias depois uma menina foi conversar com ela e relatar que também foi desacreditada mais de uma vez — e encontrou apoio.

A gente aprende a ficar relativizando estupro. “será que ele não estava bêbado?” Ué, ela também estava. O fato de ele estar bêbado muda o fato de ter insistido? Não. “Mas ele é uma boa pessoa.” Bem, essa boa pessoa abusou de uma mulher, independente de ter demonstrado qualquer histórico problemático ou não.

Quando duvidamos das vítimas, a ferida cresce e cresce mais e mais. E como feminista, eu não conheço poucas mulheres que foram abusadas — conheço poucas mulheres que não foram. Porque tentando construir espaços seguros em conjunto, o largo número de mulheres que já sofreu abusos se sentiu à vontade pra falar. Se esses espaços não existissem… talvez pensaríamos como as pessoas fora do feminismo, de que estupro acontece pouco, sempre praticado por monstros, quando na verdade ocorre todos os dias, com quase todas as mulheres.

Não duvidem. apoiem. Eu bem sei que é preciso um esforço gigantesco pra aceitar um abuso e maior ainda pra contar pra alguém. Estejam lá por elas.