acordei e percebi que um homem esfregava o pênis no meu ombro – 983

983 – Tenho um biotipo comum, nada muito especial, mas sempre sofri cantadas de rua apesar de nem de perto fazer o estilo sexy (na verdade me acho bem apagada). Assobios e cantadas breves emitidas de longe como ‘linda’, ‘princesa’ e coisas do tipo eu costumo apenas ignorar e continuar andando. Mas como passei por algumas situações que até hoje me dão vontade de chorar resolvi deixar um depoimento aqui no Cantadas de Rua.

Moro longe dos meus pais e por alguns anos viajava de ônibus para vê-los pois ainda não contava com condições de viajar de avião. Nestas viagens, que foram muitas entre meus 15 e 22 anos, passei por muitas coisas desagradáveis com caras sempre encontrando um jeito de se encostarem em mim. Minha atitude quase sempre foi me desviar do assédio, fugir mesmo.

Certa vez acordei e percebi que um homem que estava em pé esfregava o pênis no meu ombro, já que eu estava sentada e dormindo no assento do corredor, e muito enojada vi que a calça dele estava úmida… Fiquei bem assustada porque estava viajando sozinha, não tive coragem de olhar para ele. Levantei-me, pedi licença e fui até a cabine do motorista. Foi só entrar na cabine que cai no choro e tremi muito contando ao motorista o que estava acontecendo. Ele foi gentil e disse que eu poderia ficar na cabine, mas não fez nada com o cara e pediu que eu ficasse calma porque em ônibus acontecia isso mesmo! Eu passei o resto da viagem ali, em pé. Se o tempo voltasse eu teria gritado e falado para todos que estavam no ônibus o que havia acontecido porque hoje percebo que fui, de certa forma, estuprada.

Na época do ensino médio eu cheguei a tomar ônibus dentro da cidade algumas vezes mas só em uma vez não consegui me desviar de homem tentando se aproveitar porque estava bem lotado, então imagino o que passam as mulheres que precisam de transporte coletivo todos os dias… Quanto mais eu tentava me mexer para sair dali mais ele me pressionava com o corpo dele e fiquei com medo de reagir e ele descer no meu ponto e me seguir, até que um outro cara percebeu o que estava acontecendo e puxou o babaca pelos cabelos. Ele puxou o cara, o chamou de filho da puta e falou para quem estava perto o que o cara estava fazendo e um senhor idoso me deu o lugar dele. Quem estava perto se afastou para que eu sentasse, e lembro que uma mulher que estava perto soltou uns palavrões. Parecia que o mundo estava sem som, eu ouvia tudo como se fosse distante, eu estava com muita, mas muita vergonha.

E a terceira vez que me senti mais fortemente assediada foi, quando ainda solteira estava em uma festa de rua com uma amiga e um senhor de uns 50 anos começou a soltar piadas e a fazer comentários chulos. Primeiro eu fiz de conta que não ouvia e me afastei até que ele falou algo como ‘se quiser sentar no meu colo venha’. Não sei de onde veio a coragem. Eu cheguei bem perto del, e apontei no seu rosto ao mesmo tempo em que perguntei quem lhe tinha dado o direito de falar comigo daquela forma, soltei alguns palavrões e no final perguntei gritando: ainda quer que eu sente no seu colo, quer? Só sei que o cara só esperou um espaço, levantou-se e saiu.

Depois desse dia vi que vale mesmo a pena reagir a estes babacas, são uns covardes mesmo, são a pior espécie de homem.

Recentemente eu vinha saindo do trabalho e meu marido estava aguardando do lado de fora. Na porta um imbecil se virou e disse ‘princesa’ enquanto eu passava. Na mesma hora eu dei um tapa no ombro dele, que já estava de costas. Ele virou assustado pois não esperava nenhuma reação e perguntei com a face já autoritária que os anos me deram: ‘dá pra repetir o que o senhor acabou de falar quando se dirigiu a mim?’. Ele só abaixou a cabeça e continuou andando.

Sempre que você se encontrar em uma situação do tipo e perceber que a sua reação será segura porque há pessoas  perto que podem defendê-la ou inibir uma agressão do outro lado, reaja, nem que seja apenas mandando o idiota  tomar no cu porque o que eles querem com a cantada é afirmar masculinidade, é sentir que contam com poder sobre nós e que somos objetos inanimados. Mas não somos.