andar olhando pro chão virou minha postura padrão – 675

675 –  “Eu já estava irritada por um cara ter gritado “gostosa!” de uma caminhonete enquanto eu esperava em um ponto de ônibus para encontrar minha mãe no médico (ao que logo revidei mostrando o dedo de meio, coisa que sempre acabo fazendo por impulso seguido por medo de represália).   Minutos após encontrá-la, seguimos nosso caminho. Apesar do calor, eu usava  botas e vestido longo. Roupas normais, nada provocativas (e mesmo se fossem, enfim). Enquanto andávamos na calçada, passamos por três rapazes com latinhas na mão e com som alto no carro e eu já fui logo olhando para o chão, coisa que faço por puro reflexo ao passar por homens. Aparentemente já bêbados, um deles ficou dizendo “oi!” insistentemente e olhando para a minha mãe. Ela, no auge de sua simpatia, respondeu, imaginando que o conhecia. O rapaz se aproximou, a beijou no rosto e disse “é sua filha? Parabéns, ela é linda! A senhora também é.” e também veio me beijar. Fiquei congelada enquanto minha mãe correspondia ao “gracejo” agradecendo e rindo.  Ao irmos embora, com olhos marejados e muito nervosismo, falei da “cantada”  que havia recebido no ponto de ônibus. Minha mãe disse que era bobagem e que eu devia ficar tranquila e parar de ser estressada, pois se um homem fala que estamos bonitas temos mais é que ficarmos com o ego inflado e felizes e que, além disso, o fato de eu agir assim é o principal motivo de eu estar solteira.  Ver a minha mãe compactuando com aquela situação me deixou doente. Será que tô exagerando? Aliás, só pra constar: essa foi apenas mais uma das cantadas nojentas que sou obrigada a receber diariamente. Infelizmente. Como já havia citado anteriormente, andar olhando pro chão virou minha postura padrão em diversos momentos. Não consigo mais andar com a cabeça erguida por medo de pessoas que acham que têm o direito de ferir minha liberdade de ir e vir e me vestir como quero.  Cantadas e “gracejos” gratuitos são agressão SIM!”