berrava às cinco da manhã que ia me “abrir as pernas” – 603

603 – Eu sempre pego ônibus às cinco e tantas da manhã, com tudo escuro, não tenho carro e se eu demorar mais que isso para sair de casa, chego atrasada na aula. Geralmente não tem ninguém na rua, ocasionalmente encontro alguém no ponto de ônibus, mas sem muita regularidade. Fico com medo, mas me tranquilizo pensando que tem um posto de gasolina logo na esquina, pra onde eu poderia correr e pedir ajuda ou que se algo me acontecesse, eu pelo menos poderia pedir socorro pra eles e alguém viria. Eu tive aula durante o feriado e nesses dias a rua estava ainda mais erma que o normal, já que nem a meia dúzia de pessoas que de vez em quando passam por ali foram trabalhar. Enquanto eu estava no ponto, esperando o ônibus, dois caras saem do posto de gasolina aos berros, brigando um com o outro. Um estava aparentemente expulsando o outro do posto, não sei se era algum mau cliente levando bronca do frentista ou se eles já se conheciam antes. Estava só eu e os caras na rua e tudo escuro, então resolvi fingir que não estava ouvindo. Só que aí um dos caras começou a gritar pro outro: “Você é um filho da puta que não come ninguém, só tá me expulsando daqui pra poder atravessar a rua e ir abrir as pernas da menina lá.” O outro cara virou as costas e foi embora, mas o primeiro continuou gritando pra ele: “Você não sabe nem foder, quando eu for lá abrir as pernas daquela menininha você vai saber o que é foda, eu já fiz isso muito, e você, quero ver você ir lá e fazer”. Por sorte o ônibus chegou uns dez segundos depois disso. Pode ser até que o que me aconteceu hoje fuja aos propósitos da página, porque não foi uma cantada. O cara não estava tentando me convencer a ficar com ele. Ele estava berrando às cinco da manhã em uma rua escura que ia me “abrir as pernas” independente de eu concordar ou não, e estava convocando o outro cara, que por sorte não deu bola, a ir lá e fazer o mesmo. Eu cheguei passando mal de nervoso na aula e tinha que desabafar.