“cada lindeza que aparece aqui pra gente, né?” – 1167

1167 – Hoje peguei o ônibus logo cedo e, como sempre, dei uma rápida examinada no motorista para checar se, ao cumprimentá-lo com um bom dia, ele me responderia educadamente ou com um assédio disfarçado de elogio. Como ele olhou para minhas pernas (estava de vestido curto) e sorriu maliciosamente, eu passei direto de nariz empinado sem dizer uma palavra.

Só tinha lugar para sentar na frente. Mesmo vendo que eu estava com fones de ouvido, ele começou a me olhar pelo retrovisor e cantar uma música, bem alto, que consistia basicamente no verso “minha linda flor de maracujá”. Seria romântico, se não fosse absolutamente descontextualizado e agressivo, a partir do momento que outras pessoas se tocaram que aquilo era para mim e começaram a rir e tecer comentários maliciosos junto ao motorista. O cobrador chegou a dizer “cada lindeza que aparece aqui pra gente, né?”. “PRA GENTE”. Eles se apossaram de mim, da minha presença como se eu estivesse ali para eles e por eles.

O motorista, um velhinho, por sinal, passou toda a meia hora de viagem olhando para trás, me encarando a cada semáforo fechado. Ele estava a pouco mais de um metro de mim, criou uma situação muito desagradável e insistiu, mesmo vendo que eu absolutamente não tinha interesse.

Por quê?

É a pergunta que fica.

Por que transformar uma manhã que poderia ser tranquila para a faculdade, ao som das minhas músicas prediletas, numa experiência incômoda e sufocante?

E se eles estivessem sozinhos comigo no ônibus? Como ter ctz de que eles não seriam AINDA MAIS diretos?