Cantada 017

17 – “Há cerca de quatro anos atrás, um cara começou a me assediar na rua. Eu tinha 14 anos e era uma moça “comportada”, nunca usava roupas curtas, saía somente durante o dia e evitava fazer isso desacompanhada, mas nada disso foi o suficiente para escapar desses assédios. Esse cara deveria ter por volta de um pouco mais de quarenta anos, mas eu não lembro bem sua fisionomia porque evitava ao máximo olhar para o sujeito.  Ele dizia coisas constrangedoras toda vez que eu passava por ali, geralmente indo pra escola. Falava que eu era “sua morena” perguntava se eu estava indo pra escola, se tinha aula e coisas do tipo. Houve uma vez que ele parou na minha frente, me obrigando a parar também e me fez perguntas do tipo “qual é o seu nome? Tem quantos anos?”, eu fiquei mais uma vez sem muita reação, só me afastei dali o quanto antes. Não tinha a menor idéia do que fazer, tudo o que eu fazia era abaixar a cabeça, apertar o passo e evitar passar por ali. Nunca contei pra ninguém essa história, nem para os meus pais, me sentia ameaçada e torcia pra ele largar do meu pé. As “cantadas” ficaram piores quando passei a tocar violão nas reuniões de adolescentes da igreja, que aconteciam toda quarta-feira. Eu tinha que passar por aquela rua carregando meu violão e ouvir o sujeito dizer coisas do tipo “quando é que você vai tocar uma pra mim?”. Por sorte, meus pais resolveram se mudar dali o quanto antes, e então eu passei a ficar mais tranqüila. Ainda moro na mesma cidade onde isso acontecia, mas nunca mais precisei passar por aquele trecho e tenho medo de algum dia precisar fazê-lo.”  [Maria]