Cantada 031

31 – “Fico muito feliz por haver uma página em que eu e outras mulheres possam contar o horror um dia que sofremos na rua. Prefiro manter o anonimato mesmo já compartilhando esse relato com algumas pessoas próximas e nem tão próximas. No ano (2011), fazia um curso noturno em uma universidade do centro de São Paulo. Fazia muito calor naquela noite, por isso decidi usar uma blusa de alcinhas, prender o cabelo e uma calça justa mas, que me deixasse mais à vontade. No caminho fui importunada por alguns homens que ficavam me olhando mas, nada muito grave. Quando cheguei no trecho em que atravesso um viaduto foi que aconteceu. Um homem que andava em frente virou pra trás e começou a andar na minha direção, achei a princípio que ele quisesse me assaltar, o que sinceramente, eu preferia que ele tivesse feito, pois só estava com um caderno, canetas e um passe de metrô. Ele correu na minha direção e praticamente “congelei” quando ele tocou na minha intimidade. Gritei muito alto. Chamei ele de “filho da puta”. Ele agarrou meu braço e disse: “Tá reclamando do quê?! Devia era me agradecer!” Tentou me puxar para um canto afastado mas, o meu escândalo, para a minha sorte, chamou a atenção do pessoal que treinava numa academia próxima dali. Homens e mulheres saíram pra ver o que se passava. Isso afugentou o agressor. As pessoas me perguntaram se eu estava bem e eu disse que sim, relutante. Como se não bastasse já estar apavorada dele estar espreitando, um pessoal que trabalha ali próximo ficou com piadinhas como “Vestida desse jeito esperava o quê?!”. Me senti assediada mais uma vez. Nunca mais andei por aquele mesmo trecho à noite e tive medo de prestar queixa, por medo de ouvir o mesmo que ouvi naquela noite “Vestida daquele jeito, esperava o quê?!”  [Yvone]