Cantada 032

32 – “Bom, fazem 10 anos disso, mas me lembro como se fosse ontem. Eu tinha 14 anos e estava voltando de uma festa. Deviam ser umas 23h e eu já tinha, teoricamente, passado a pior parte do trajeto. Estava sozinha e a festa era a umas 10 quadras de casa (uns 15 minutos a pé, de salto). De repente vejo um senhor bêbado vindo de bicicleta na rua. Nem me importei na hora. Dali a pouco eu sinto uma mão atochada na minha bunda e escuto um “gostosa”. Acho que nunca corri tanto quanto naquele dia! Me deu um medo e desde então evitava andar pela minha rua, fazia caminhos mais longos para não sofrer com isso.  Na verdade, eu escuto coisas como “gostosa”, “bucetuda”, “cavala”, “potranca” desde meus 11 anos. Isso me incomoda muito. Hoje, não costumo responder, até para não sofrer retaliação.  Há pouco mais de um mês estava eu no metrô. Linha vermelha, São Paulo, 18h. Nem uma mosca fica confortável ali. De repente sinto uma coisa estranha na minha bunda. Indo e vindo. Olho pra trás e o moço me dá um sorrisinho de tarado. Tento fugir como dá, mas o cara começa a ir atrás. Nisso, outros dois moços ficaram meio atentos ao que acontecia. Uma hora me irritou e eu dei uma cotovelada. Esses dois moços me puxaram pro meio deles e eu consegui ir tranquila o resto da viagem. Contei pro meu marido e ele disse que ao invés de bater, o melhor é gritar coisas como “vai me encoxar mesmo?” e afins, pois aí não há chance do cara te devolver de alguma forma.  Sei lá, pode parecer estranho, mas eu precisava fazer isso. Eu precisava dar essa cotovelada. Era como se aquela menina de 14 anos pudesse finalmente responder à altura.”  Mi