Cantada 037

37 – “Eu costumo há muito tempo responder às “cantadas”, que vão desde “novinha delícia”, “aí sim, bebê” e “oi, gatona” até “mama eu, vadia” com o dedo do meio, às vezes xingo, mas evito, até porque já me peguei na maior contradição: chamar um cretino desses de “filho da puta”, como se esse termo, por ser tratado como ofensa (popularmente acredito que tratado como a maior das ofensas) não reproduzisse justamente o machismo que eu estava sentindo na pele como um tremendo abuso.  Uma vez, sem “cantada” nenhuma, fui surpreendida com um assédio: um cara me passou a mão, entre outras coisas, e simplesmente me senti totalmente vulnerável, uma completa idiota, na verdade, como se não merecesse o mínimo respeito, sabendo que o cachorro do vizinho seria muito mais fortemente defendido se fosse tocado do que eu, que estava “andando sozinha por uma rua escura”. Ao menos não supus que alguém fosse falar da minha roupa caso presenciasse o momento, já que eu estava de jeans folgada e camiseta regata – prestei atenção a isso quando pensei em fazer uma denúncia.  O acontecido não mudou nem para “mais” nem para “menos” o meu impulso – um impulso consciente, vulgo “raiva” rs – em responder a cantadas deixando claro que eu nunca vou tratá-las como se fossem “elogio”. Mas devo admitir que muitas vezes, depois de reagir, sinto medo de que minha reação tenha como resposta mais abuso e mais invasão, o que faz com que eu consiga “conter” a vontade de reagir muitas vezes – em vez de ir pro cretino da “cantada”, vai pro meu estômago e pra minha cabeça. Eis a fonte das enxaquecas de muitas mulheres. Às vezes, acabo baixando a cabeça e acelerando o passo, e aí me sinto mais ofendida ainda, como se estivesse dizendo “ok, sou frágil, você é mais forte, sinto medo de você e não posso impedir que você faça o que quiser”, como se estivesse (e estou!) sendo forçada a me humilhar e admitir uma inferioridade que não existe, que é imposta por força.  Recentemente voltei a ter o hábito de não ceder a toques de recolher subdeterminados para as mulheres, como o “não andar com x roupa ou em x lugar, ou em x hora”: caminho por onde preciso, do jeito que dá e acima de tudo do modo como quero. Até porque, notei que às 6 da tarde ou às 10 da noite o meu medo é o mesmo e as coisas pelas quais passo são as mesmas. TODO lugar e tempo nos apresenta o risco de assédio.  Mais uma humilhação é meu medo de me expor aqui, contraditório a tudo o que defendo. Um dia, quem sabe, eu supero esse mais um medo que fui ensinada a ter por ser mulher. Enquanto esse dia não chega, por favor, não me identifiquem. Gostaria de assinar como “Rosa”. Obrigada.  [Rosa]