Cantada 038

38 – “Eu tenho uma irmã cinco anos mais nova que eu e quando eu tinha 17 (e ela 12) estávamos caminhando pela Rua Consolação (na altura de um prédio do Tribunal de Justiça – sede administrativa) em plena luz do dia (por volta do meio dia).  Estávamos na calçada e dois homens adultos aparentando mais de 30 anos vinham em nossa direção, um deles deu uma cutucada no colega ao lado para chamar a atenção dele sobre a nossa presença. Esse outro começou a falar coisas como ‘ gostosas’ ‘delìcias’ para nós duas. Quando chegaram mais perto, um deles levou as mãos em direção das partes íntimas de minha irmã (como se fosse pegar) e disse ‘ me vende um kilo de bu**ta’. Ambas demos um pulo para trás e minha irmã, apavoradíssima, colocou-se atrás de mim, tremendo-se toda.  Furiosa,eu respondi: ‘vem pegar, seu maldito! Vem que eu quero ver’. Isso o surpreendeu, porquanto inesperado. O outro começou a tirar barato da cara do colega dizendo ‘ vai, cara, você não é homem?’, rindo-se. Isso instigou o cara a reagir xingando minha irmã de feia, cabelo de bombril, e ‘ você nem é tão bonita’.  Minha raiva cresceu ainda mais e eu dizia ‘ covarde, para vc tocar em minha irmã vc precisará antes me matar’. Minha irmã balbuciava ‘ pelo amor de deus, vamos embora’ pois estava temeu por minha segurança. Nossa sorte é que meu escândalo chamou a atenção de outros transeuntes (homens e mulheres) e um dos homens disse ‘ ôôôô, deixe as meninas em paz’.  Nunca havia reagido a um assédio de rua também por temer por minha segurança, minha reação nesse caso foi mais por conta da imensa indignação que me tomou o assédio voltado para a criança (minha irmã). As mulheres que nos ouviram provavelmente não reagiram também por medo.  Isso mostra que o assédio nas ruas não é paquera ou flerte, mas sim demonstração de poder que atemoriza as mulheres (todas) e que os assediadores quando confrontados, podem se tornar mais violentos por achar que mulheres são inferiores e não tem o direito de confrontá-los e que só param se outro (homem) que consideram um ‘ igual’ interceder. Até hoje a minha irmã, com mais de 30 anos, não gosta de lembrar do episódio.  Ainda temo por minha segurança a cada assédio que recebo e até pouco tempo atrás não me ofendia se o teor da ‘ cantada’ não fosse ‘ grosseiro’, já que ainda achava que era paquera, ‘ coisa de homem’.   Uma amiga minha contou que voltava da academia e um carro diminuiu a marcha e um homem lá de dentro ofereceu-lhe carona. Quando ela recusou ele disse que sempre passava por ali e observava que ela saía sempre nos mesmos horários e como a achou bonita, queria tentar uma oportunidade para conhecê-la melhor. Quando ela, ainda assim, recusou, ele ‘ se ofendeu’ e passou a xingá-la com todos os palavrões imagináveis. Esse relato dela me lembrou o episódio da minha irmã e somando-se a isso todos os demais relatos que ouvi de diversas mulheres pude perceber que a natureza do assédio é a mesma, pouco importando se for mais ou menos grosseiro.”  [Celina]