Cantada 055

55 – Gustavo Luchi Li quase todos os depoimentos e preciso confessar: mesmo eu que me achava alguém esclarecido acerca das injustiças sofridas pelas mulheres, fiquei impressionado com tamanho sofrimento causado pelas ‘cantadas’. A forma agressiva como os homens reagiram quando enfrentados nessas situações mostra o teor opressor destes assédios. Refletindo sobre como a sociedade simplesmente menospreza toda essa humilhação diária, tentei me colocar no lugar das mulheres. Nesse momento vi que não consigo deixar de estar inserido nessa sociedade machista, mesmo não querendo. Não tenho medo de ser coagido por mulheres na rua, simplesmente não passa pela minha cabeça ser estuprado por uma mulher. Felizmente para a reflexão, me lembrei de um caso de assédio que sofri. Tinha meus 8, 9 anos. Estava saindo do estacionamento do colégio em que estudava quando um carro para ao meu lado; um homem olha pra mim com cara de quem iria me devorar e diz algo como: ‘oi gato’. Fiquei apavorado! Saí correndo e fiquei ao lado do guarda do estacionamento, com medo de que ele voltasse. Foi horrível. Ontem, pensando no que iria escrever, tive uma ideia: Quando forem tentar mostrar a gravidade dos assédios sofridos pelas mulheres, para homens que não conseguem conceber que não é um ‘elogio’, proponham a seguinte reflexão: Image que seu filho, que não tem nem seus 15 anos ainda, é abordado por um homem o qual começa a falar a mesma coisa que as mulheres tem de ouvir quase diariamente. Tenho certeza que todos ficarão horrorizados e que isso por si só bastará pra provar o quanto nosso -da sociedade- juízo de valores é influenciado pelo machismo.