Cantada 074

74 –  Fico assustada com tantas histórias, mas feliz com a coragem das colegas. Tenho alguns casos também. Vou contando conforme criar coragem.               Tinha uns 16 anos de idade, mas como sempre fui muito magrinha, fui a última entre as minhas amigas a tomar corpo, então não estava mesmo habituada a receber olhares e coisas do tipo. Mas, como de uma hora para outra, mesmo sem que eu me tomasse conta disso, meus seios já eram maiores que o de qualquer uma delas e, numa tarde de meio de semana, fui ao centro de minha cidade pagar contas e comprar algo no mercado (minha mãe era sozinha e trabalha muito para criar três filhos, além de estudar). Fui numa lotérica que acabava de ser inaugurada e, pela ocasião, estavam distribuindo doces, a moça do caixa gentilmente me ofereceu um pirulito. Aceitei, abri e saí da lotérica com a sacola com ele na boca. A caminho do mercado um senhor de meia idade passa por mim com os olhos no meu busto, se aproxima de meu ouvido e fala “delícia”, levei um baita susto, mas o pior estava por vir. Uma senhora, provavelmente sua esposa, saiu de uma loja próxima bem na hora e o pegou no ato, mas, para minha surpresa ela não se voltou contra ele, mas contra mim, dizendo: “Também, essas vagabundas se oferecem o tempo todo. Tem mesmo que ser vagabunda para com esse tamanho estar chupando pirulito”.         Entrei apressada no mercado, mas fiquei tão confusa, que na hora achando que a culpa era mesmo minha, joguei o pirulito no lixo.         Hoje sei que a culpa não foi minha, mas ainda não consigo chupar pirulito sem me sentir culpada de alguma forma, e nunca, nunca o faço em público.  Evelyn