Cantada 095

95 – Infelizmente tenho um histórico bem extenso de cantadas e assédios sofridos ao longo de um período que se iniciou juntamente com o principio de minha puberdade,mas vou poupar-lhes dos mais triviais (se podemos assim classifica-los) para dividir com vocês o segundo fato que mais me assombrou nos últimos meses. Voltava sozinha e a pé de um encontro de amigas que ocorria no feriado, eram por volta das 4 horas da tarde e como precisava apenas seguir por duas avenidas até minha casa não vi problema algum,vestia uma camiseta larga,shorts,tênis,não levava bolsa o meu cabelo estava preso em um coque. Seguia sozinha na calçada,que por sua vez estava completamente vazia como resultado do feriado,estava atenta,como normalmente ando,até que um homem em uma bicicleta ao passar por mim,indo na direção contraria,tenta chamar minha atenção de chamando de “princesa”,simplesmente ignorei,como de costume, e continuei meu percurso. Porem quando virava a esquina notei algo vindo em minha direção,esse mesmo homem que havia passado por mim estava voltando, e como pedalava rápido conseguiu bloquear meu caminho posicionando a bicicleta na minha frente,perguntando de forma agressiva porque diabos eu não havia agradecido seu elogio,me sentindo extremamente impotente diante dessa situação a única alternativa que me pareceu viável foi abandonar a calçada,tentando deixar a barreira para trás,quando tive o braço agarrado por esse homem que gritava as mais ofensivas asneiras,que por sinal não faço a minima questão de lembrar,a uma distancia tão minima do meu rosto que conseguia sentir seu halito e sua saliva respingando em minha bochecha. Ao conseguir me soltar me dirigi rapidamente a um ponto de ônibus que ficava perto,com a intenção de subir no primeiro ônibus que passasse,mesmo que este fosse para a direção contraria da minha casa,apenas para não continuar mais ali. Havia uma outra mulher na parada,que talvez por estar tão vulnerável quanto eu ignorou meus pedidos de ajuda. Enquanto aguardava impacientemente o ônibus via a figura daquele homem se aproximando novamente e só pensava em conseguir arrumar um modo de sair dali o mais rápido possível. Se aproximou apontando o dedo indicador e gritando algo sobre eu “Precisar aprender a me comportar melhor, a ser educada e a me maquiar de um modo normal caso eu queira encontrar um namorado” não me contive e de modo meio irracional explodi e o perguntei se em algum período de sua vida ele havia aprendido o que era respeitar alguém. A única resposta que obtive além do pior olhar de ódio que já recebi em minha vida foi a de que pelos shorts que eu usava a culpa não era dele,então peguei o celular e fingi pedir ajuda,o que parecia ter funcionado quando o vi subir novamente em sua bicicleta e seguir caminho,o caminho contrario que estava a seguir, agora em direção a minha casa,olhando incessantemente para trás. Respirei aliviada por o ver se afastar de mim,porem crescia o medo de ser abordada novamente por ele mais a frente,onde sabia que existiam terrenos vazios e construções abandonadas. Fiquei ali parada por um longo período,tentando me recuperar,tentando entender o que havia acontecido,tentando recobrar minha confiança enquanto esperava que ele se afastasse cada vez mais ao final da avenida,e continuei o observando,assim como ele continuava a olhar para trás, até o momento em que o vi dar meia volta com a bicicleta e se dirigir novamente a mim,dai em diante só me dei por mim quando já havia atravessado aquela avenida de mão dupla na frente de um caminhão,havia corrido um quarteirão como nunca havia corrido na vida e me encontrava dentro do único estabelecimento comercial aberto nas proximidades implorando por ajuda. Ao contar o ocorrido para amigos, e namorado o que recebi foram risadas e comentários como “Essas perninhas finas e branquelas que mais parecem canos de PVC chamam tanta atenção assim? Uau”,porem ainda hoje,meses depois ao relembrar o ocorrido o sentimento de impotência e fragilidade ainda me assombram. Bárbara.