Cantada 098

98 – Bom, já passei por várias situações constrangedoras na rua, eu que gostava tanto de andar por aí, que me sentia livre ao sair sem destino, cheguei ao ponto de querer me trancar em casa. Neste ano foram várias “cantadas – ameaças”, duas delas ocorreram num mesmo dia em que resolvi correr: um menino de uns 8 anos que pegou em minha bunda enquanto eu corria, tive vontade de matá-lo, mas quando vi o tamanhico da figura minha única reação foi gritar e correr em sentido contrário. No mesmo dia um velho disse que “me chuparia todinha” e eu fiquei gritando feito uma louca na rua, dizendo que ele não tinha mãe, que deveria ser preso, pois era uma ameaça, enfim. Outros homens que passavam no local ficaram assustados, mas pude notar o olhar de reprovação como se o cara estivesse “meio” certo por eu estar com roupas de ginástica. Mas seja de calça jeans, de short, de vestido longo não suporto aqueles olhares de cima à baixo, aquele “bom dia”, o “linda” com voz mole, os assovios no carro. Enfim, não me prendi muito aos detalhes, o fato é que este ano tive um ataque de pânico e hoje odeio andar em público, porque se xingo me saio como louca e me exalto, se fico quieta morro por dentro, sendo assim prefiro ficar em casa. Não corro mais, mesmo com meu namorado se oferecendo para me acompanhar. Me sinto triste e impotente ao ler estes relatos, mas aqui está o meu para compor esse terrível cenário que acompanha mulheres que como eu, adquirem traumas somente por o sê-lo. Sinto que essa não é uma dor só minha, é uma dor coletiva. B.