Cantada 114

114 – Antes de tudo, devo falar que gostei muito da página. Nunca fui “feminista” porém sempre fico indignada quando põem as mulheres em situações de inferioridade como se fosse algo lógico e natural, e quando agem de forma semelhante a dos animais apelidados por nós ‘irracionais’: os machos têm que mostrar a maior agressividade possível pra conquistar fêmeas, podendo assim reproduzir e perpetuar a espécie, sendo às vezes necessário a reprodução forçada… (engraçado, o ser humano se acha tão inteligente e temos uma população bem significativa, não?).  Enfim, vi a página hoje, li muitos relatos, e isso despertou em mim um sentimento de indignação maior do que eu sentia antes; fiquei me sentindo bastante privilegiada por não ter passado por situações parecidas, talvez porque eu quase não precise andar a pé. Mas foi aí que me recordei de um fato já meio apagado na minha mente, que não chegou a ser um assédio, e nem tenho certeza se é necessário me sentir ameaçada, pois eu sou um tanto paranóica e qualquer coisa me deixa nervosa. Só que isso aconteceu dentro da minha própria casa e esse detalhe não me deixa não sentir medo.  Não foi nenhum parente, e sim um empregado do meu pai. Ele trabalha em nossa casa há muitos anos, e sempre costumou me chamar atenção falando meu nome ou usando apelidos quando, andando em casa, eu passava por ele e também me chamava de feia, mas sempre me pareceu brincadeira, nunca fiquei ofendida. De uns tempos pra cá a abordagem mudou, agora o feia virou “bonita”, “tu tá ficando muito linda” e coisas assim. Além disso, ele tem a esquisitíssima mania de passear pela casa e parar na porta do meu quarto, entrar, puxar assunto com besteiras sem importância, ficar em silêncio após minha resposta seca e finalmente sair. Juntei os fatos na minha cabeça e isso só podia significar que ele estaria tentando alguma coisa comigo. Assim que tive a minha conclusão contei isso pra algumas poucas pessoas, não lembro quem nem quantas. Me falaram que eu devia contar para meus pais, nunca o fiz pois não tive coragem nem dei tanta importância, mas sempre me sentia bem agoniada se eu estivesse em casa apenas com ele, inclusive mantinha meu canivete por perto enquanto isso. Pode ser paranóia minha, mas quem sabe?  Ele passou uns tempos sem vir, pro meu alívio, e até esqueci. Hoje, então, ele veio fazer um serviço, e estou sozinha com ele; canivete por perto. Preferia que ele continuasse só me chamando de feia, mesmo.  J.S.