Cantada 118

118 – Apesar de todos os comentários que eu já ouvi na rua, de homens que já me passaram a mãe na bunda, que já me encoxaram em shows etc., os acontecimentos cuja raiva não passa são aqueles cujos os responsáveis eram pessoas muito próximas.  Andava sempre com um cara durante a faculdade. O cara sempre me jogava verde, mas eu não levava à sério. Considerava ele meu melhor amigo, portanto fazia vista grossa para esse comportamento que me incomodava. No entanto, uma série de eventos foi me abrindo os olhos: um dia, andando os dois à noite, um grupo de meninas nos seus 16 anos passou pela gente. Ele virou e disse “boa noite” daquela forma bem cafajeste, e as meninas apertaram o passo e fizeram cara feia, visivelmente constrangidas. Eu fiquei chocada, mas não disse nada, naquela época eu achava que isso deveria ser “normal” (embora me sentisse mal com isso). Depois, um dia fui à faculdade com uma roupa mais decotada e ele parou, me olhou de cima a baixo com cara de babão, depois fixou o olhar nos meis peitos e ficou falando “nossa, você tá…hein…noooossaaa…”. Parecia um tarado desses da rua. E eu fiquei tão sem graça que não tive reação. Fiquei lá, em pé, constrangida, morrendo de vergonha dos que passavam…depois disso fui meio que me afastando dele…mas ainda achava que esse era um “preço” que eu tinha que pagar pela amizade dele, veja só…teve uma outra ocasião em que um amigo super babaca dele ficou me enchendo o saco para eu ficar com esse cara. Eu disse claramente que não, mas no final da noite, o meu “amigo” me deu uma cheirada no cangote e eu fiquei desnorteada, fingi que nada aconteceu e me apressei para ir para casa. Eu nunca dei mole para esse cara. Daí veio o facebook e então tudo ficou muito claro: ele postava, em média, a cada uns 15 minutos (sem brincadeira) algo endeusando “as belas mulheres” (isto é, coisas mais ou menos pornográficas) para logo em seguida fazer comentários escrotos e desinformados sobre o feminismo, como o de que o feminismo AINDA não matou ninguém e de que mulher não ama, etc, etc, etc. Aquilo ficou tão insuportável que eu não acreditava como eu tinha perdido tanto tempo com um canalha daqueles achando que era um grande amigo. Daí, um dia, tomei coragem e o confrontei sobre o comportamento dele não só comigo, mas com outras mulheres, e fiquei surpresa com a reação infantil dele de dizer que nunca tinha sido afim de mim, blábláblá, que eu estava me gabando como sempre o fazem todas as mulheres no final, que era ele que era tratado como objeto pelas mulheres, que era ele que sofria violência psicológica das mulheres por ser pobre e feio, que o que eu estava fazendo era mais um exemplo disso, que mulher só gosta de homem com dinheiro, por isso que ele não “pega” ninguém…fiquei com tanto nojo dele que nunca mais nos falamos. Ele tentou há um tempo atrás reatar a amizade, mas meu nojo era tamanho que eu nem respondi. Ele é desses tipos que parece super legal, o típico “cavalheiro” mas no fundo é um cafajeste como a maioria. E o que me dá mais nojo ainda é a posição de vítima na qual ele se coloca. E detalhe: ele estuda ciências sociais e se diz antropólogo. Pode isso?