Cantada 126

126 – Eu estava morando em Londres fazia um mês, meu ex namorado, com quem eu morava, costumava me levar e buscar do curso de carro, mas esse dia ele tinha ensaio e não poderia. Peguei o ônibus e quando fui saltar, vi que um cara levantou-se muito rapidamente. Achei estranho e fiquei ligada, mas não achava que aconteceria nada demais. Ele me abordou e me perguntou onde poderia pegar o ônibus para um bairro próximo, eu disse que ele havia acabado de descer do que passava lá (pra ele se ligar que eu não estava de bobeira). Então ele me disse que na verdade aquilo era uma desculpa e que eu tinha uma silhueta incrível (?), que eu era linda… Aí eu disse, já meio puta, que agradecia mas que eu era casada (tentando me valer do “meu macho”, já que aquele ser não respeitava uma mulher sozinha) e que ele estava em casa me esperando. Ele disse que tudo bem e que iria embora (o cara tinha uma aparência de maluco, um machucado no nariz e um cabelo desgrenhado). Eu virei as costas com muito medo e continuei seguindo. O ponto em que eu descia era na área residencial mas bem perto do centrinho comercial do bairro, com algum movimento, só que se você se afastasse um pouco que fosse, já entrava na área residencial mesmo. Por isso virei a curva e dei um tempinho pois sabia que se entrasse pros lados das casas e esse cara estivesse atrás de mim, seria bem mais difícil de alguém me ouvir. Olhei pra trás e nem sinal dele, respirei aliviada e segui até o fim da rua, virei à direita e andei um bom pedaço. No meio do quarteirão ouço uns passos muito fortes de alguém correndo e foi o tempo de me virar pro sujeito me agarrar pelos braços (já devia estar me seguindo há algum tempo) e começar a falar coisas que eu, de tão nervosa, não entendia mais. Comecei a tremer de medo e lembrei que teria que passar por um lugar que eu carinhosamente apelidei de pântano sombrio pra chegar em casa (cortava caminho por trás das casas), que estava sozinha, que não sabia o número da polícia (idiotice não saber o número da polícia), que o muro de casa era baixo e que não conhecia nada daquele lugar. Entrei em pânico e minha reação foi blefar! Comecei a gritar que ia chamar meu marido, saquei o celular e falei que estava ligando pra polícia, gritava para ver se alguém saía de casa pra ver o que acontecia. Ele meteu o rabinho entre as pernas e disse que me deixaria em paz, mas eu já estava apavorada demais para acreditar nele. Fui enrolando o filho da mãe até o ponto de ônibus que saímos que ficava em uma rua onde moravam dois amigos do meu ex. Eu falei alto que iria chamar esses amigos e ele saiu andando rápido, entrei na rua e o perdi de vista. Fui correndo pra primeira casa e toquei, toquei, toquei… nada. Olhei pro pé da rua e o infeliz ESTAVA LÁ! Aí pensei “é, agora já era!”. Fui pra segunda casa, que já não lembrava muito bem qual era pois lá era tudo igual, quando consegui identificar, toquei a campainha como uma louca. Felizmente o pai desse amigo abriu a porta, eu tremia mais que qualquer coisa e consegui, sabe-se lá como, explicar o que estava havendo. Ele me levou pra cozinha, me deu um copo d’água e eu ainda vi aquele homem nojento passando pela frente e olhando pra dentro da casa para se certificar que eu havia mesmo entrado. O pior é que me levaram pra casa logo depois, mesmo antes do meu ex namorado voltar do ensaio, eu passei o resto da tarde e algumas semanas ainda com medo dele voltar pra terminar o que tinha começado.  A experiência mais assustadora da minha vida, nem quando fui assaltada com arma eu senti tanto medo.  Júlia