Cantada 130

130 –         Estava lendo os outros depoimentos aqui e lembrei de mais dois casos que mesmo que não tenham envolvido contato físico ou violência, me deixaram bem constrangida e assustada. Os dois foram na Europa. Um deles foi quando eu estava numa livraria, olhando a estante de poesia. Eu nem estava prestando atenção na minha volta, porque é raro fazer isso no meio dos livros, então não sei se o cara estava há muito tempo na volta. Mas o que aconteceu foi que um homem bem mais velho que eu (eu tinha 17 anos, ele devia ter entre 40 e 50) me perguntou: “gosta de poesia?”. Como ele perguntou em francês, respondi que sim, também em francês. Logo que falei, ele notou que eu era estrangeira e me perguntou se eu era alemã. Eu disse que nao, que era do Brasil. Aí sim. Começou: ah, as brasileiras sao tao bonitas… ah, as brasileiras… Eu fui saindo e ele veio atras, dizendo que era pra eu ficar. Como foi em uma loja grande, logo vi um segurança e fiquei próximo a ele. Daí o dito cujo saiu. Por um tempo fiquei pensando que se eu não tivesse respondido talvez nada tivesse acontecido. Mas, sinceramente, é absurdo achar que uma resposta dessas, dentro de uma livraria, pode ser motivo pra uma perseguição assim!         O segundo caso foi dentro de um museu. Eu estava sozinha, resolvi ir ao museu e estava olhando as obras quando um rapaz de uns 30 anos se aproximou. De saída, achei que ele estivesse também olhando o museu. Mas rapidinho começou. As perguntas começaram com “gosta de arte moderna?” e terminaram com o cara me seguindo e dizendo pra irmos embora junto ou pelo menos pra deixar o telefone. Por sorte, de novo, era um museu grande e encontrei um segurança logo. Mas estar em qualquer lugar e ter de ficar se esquivando e procurando seguranças, além de raiva, gera medo muitas vezes, ainda mais quando estamos totalmente sozinhas num país.  [Eva]