Cantada 134

134 – “Não foi bem uma cantada de rua. Mas uma chantagem em casa e em seguida uma de rua. Eu tinha 11 anos de idade, tive que sair quase que obrigatoriamente para comprar algo para minha mãe às 23 horas. O clima familiar não era bom e eu fui. Na verdade eu tinha vontade de cometer suicídio, pois sofria racismo e bullying na escola e agressões verbais em casa, um clima intranquilo, tenso o tempo todo. Enquanto eu saía do estabelecimento comercial, se aproximavam dois homens e começaram a andar atrás de mim. Comecei a ouvir a conversa, achei a atitude estranha. Mas só consegui ouvir: “Vamos pegar?”. Ouvindo isso, não sei de onde tirei forças, acho que é um instinto natural de defesa que temos, comecei a correr, sem olhar para trás. E corri até chegar em casa, foi quando percebi que eles desistiram de me agarrar. Foi uma coisa que nunca me esqueci. Só de pensar em violência sexual, até agora, quando adulta, estremeço. Imagino o que uma criança não sente e o quanto isso deve marcar a vida de alguém. Me valeu o tempo que utilizei para praticar esportes na escola, onde participava de rústicas, pois eu adorava correr. O que me dava um pouco de gosto pela vida nessa época, era o esporte, mesmo sendo zombada pelos colegas. Eu sofria o sacrifício do bullying pelo esporte. Vejo que isso me valeu a pena. Sempre fui boa aluna e uma pessoa tranquila, mesmo guardando revoltas dentro de mim.”