Cantada 140

140 – Gente, eu adorei a iniciativa, acho que todos devem saber como nos sentimos quando somos assediadas. Conheci a página por meio de uma amiga e, lendo os relatos, algumas coisas voltaram na memória, coisas que eu tinha bloqueado há muitos anos. Quando eu ainda estava no colégio e tinha uns 12 ou 13 anos, costumava ir pra aula de bicicleta, já que era perto. Eu sempre passava pelo mesmo caminho e um dia, notei um homem que me seguia, tbm de bicicleta. Ele me seguiu até perto da escola e depois sumiu. Isso se repetiu no outro dia mas dessa vez ele começou a me chamar, dizendo “psiu, gatinha, olha aqui”. Eu estava morrendo de medo, contei pra minha mãe mas não tinha como meus pais me levarem pra escola. Nesse dia eu resolvi mudar o caminho pra escola, indo por outras ruas do bairro mas o cara conseguiu me achar! Fiquei desesperada e meio paralisada de pânico, só conseguia pensar em sair dali. Na pressa e no desespero eu acabei caindo da bicicleta. Não lembro o que passou na minha cabeça naquele momento, sei que comecei a chorar quando vi o homem chegando perto. Ele me ofereceu ajuda mas antes que eu pudesse recusar, ele já estava me levantando, passando a mão nas minhas pernas e na minha barriga pra “ver se eu não tinha me machucado”. Senti tanto nojo e pânico que não consegui nem gritar, falei que tinha que ir embora, subi na bicicleta e voei pra casa. Quando cheguei, vomitei muito, não sei se por causa da adrenalina, do medo… Depois disso, meus pais me levaram na delegacia da mulher pra denunciar esse cara. Uns dias depois fui chamada pra tentar reconhecer o homem que me assediou, mas ele não estava entre os caras atrás do vidro. Fiquei decepcionada e triste por ver que haviam outros desgraçados presos pelo mesmo motivo. A partir daquele dia, nunca mais fui sozinha pra escola, combinei com um colega da minha sala pra ir comigo todos os dias. Nunca mais vi aquele homem e até hoje nem sequer lembrava desse episódio (eu tinha bloqueado essa memória completamente). Confesso que só de lembrar fiquei abalada e escrever esse depoimento custou algumas lágrimas…   Ainda sofro assédios e cantadas na rua quase que diariamente, mas não me lembro de ter me sentido tão invadida, suja, indefesa e exposta quanto nesse episódio da minha pré-adolescência.