Cantada 146

146 – Gostaria de contar o que aconteceu comigo outro dia: estava indo pra faculdade, eram umas 10h da manhã. Em frente ao ponto em que espero o onibus tem uma construção. Curioso que sempre pego onibus lá e nunca tinham me provocado. Mas aquele dia eu estava sozinha, coisa rara naquele ponto. Vestia uma roupa normal, camisa e calça. Estava sentada numa boa, lendo um livro, e comecei a ouvir gritarem “vagaba”, “potranca” (????) e outras coisas feias. Olhei pra frente e uns mocos da construção (jovens. Tem mais velhos lá, mas nao eram eles que gritavam.) almoçavam, até que um deles acenou pra mim, outro fez gesto obsceno…minha vontade era mostrar o dedo do meio, revidar, mas tive medo que a situação piorasse. Subi no onibus ainda ouvindo coisas como “cadela”. Fazia tempo que eu nao me sentia tão impotente. Nao fui ameaçada, ninguém chegou em mim,nem me forçou, mas é horrível ser humilhada por nada. Por que eles falaram daquela forma comigo? Ninguém nem pode me falar de roupa provocante, pois eu estava vestida “normalmente” (o que mostra que roupa nao tem relação com o assedio). Por que? Por que? Nao me sai da cabeça. Por que certos homens, ao verem uma mulherna rua, sentem-se no direito de xinga-lá? O que eu fiz pra ouvir isso? Eu nunca vi uma mulher ver homem na rua e gritar ofensas: “broxa!”, “corno!” nem nada do tipo. O que fizemos para sermos assim desrespeitadas? E sei bem: quem xinga pode pertencer a qualquer profissão e a qualquer classe social. Muito, muito lamentável.
[comentário da dona da página] Um caso diferente, abuso doméstico. Sei que não está bem de acordo com a temática, mas já foi postada tanta coisa diferente e achei pertinente porque mostra como as relações familiares influenciam a aceitação do assédio fora de casa. *********************************** ” Muito obrigada pelo espaço para o desabafo. Eu não teria onde dizer o que vou dizer abaixo: Em um depoimento aqui na página, alguém disse ter se tornado anoréxica depois do trauma de um assédio. Durante a adolescência eu praticamente dobrei de tamanho, e hoje entendo que comer compulsivamente era uma reação não totalmente consciente ao meu desejo de deixar de ser um objeto sexual. Eu queria me tornar invisível aos olhos masculinos, porque me sentia muito oprimida todas as vezes que saía às ruas, mas também em casa. Em casa era um inferno: o meu pai todo santo dia arranjava um motivo para me aterrorizar quanto à possibilidade de arranjar namorado. Se eu brigasse com minha irmã, “é porque estava de namoradinho”, daí vinha o interrogatório, sermão, gritos, ameaças e tudo o mais. Se eu ia mal na escola, a mesma história e por aí foi, ad infinitum…Até se eu demorasse cinco segundos a mais no banheiro era motivo para gritaria e ofensas. Porque é claro, eu só poderia estar me masturbando, pensando no namoradinho. Só fui arranjar um namorado aos 21 anos, não porque meu pai proibia (porque as pessoas namoram escondido, né), mas porque emagreci e recuperei um pouco da auto-estima. Dos 13 aos 20 eu era gorda, feia, só olhava pra baixo, não falava, vestia uns camisões e jeans largos e não me interessava por ninguém e vice-versa. E meu pai sempre dizia que eu estava deformada, que assim ninguém nunca iria me dar bola. Ou seja, o que ele gostava mesmo era de massacrar minha auto-estima, seja me proibindo de namorar, seja dizendo que eu nunca arranjaria um mesmo… Recentemente eu comecei a ter umas lembranças. Eu não sei se o que sofri foi assédio sexual do meu próprio pai, mas de qualquer maneira, tenho certeza de que não foi um comportamente apropriado vindo de um pai (Só para resumir: meu pai é daquele tipo que humilhava e ameaçava os filhos diariamente, sem precisar de qualquer motivo para isso. Hoje em dia, com a Lei Maria da Penha, ele seria facilmente incluído na categoria dos que exercem violência psicológica e econômica contra a esposa). Lembro que um dos meus primeiros constrangimentos com essa questão da sexualidade foi quando eu tinha quatro anos. Meu pai queria que eu tirasse umas fotos. Tive que passar batom e vestir uma roupa mais arrumada e posar. Tinha que cruzar as pernas e lançar olhares. Mesmo muito constrangida, eu fiz o que ele mandou, porque com meu pai não tinha saída, não tinha diálogo. Ou fazia como ele mandava ou ia ouvir um monte para o resto do dia. Não tinha essa de dizer “eu não quero, não me sinto bem”. Uma outra lembrança foi de quando eu tinha 12 anos e estava na praia. Eu já estava começando a formar um corpo nessa época. Meu pai me levou para uma pedra longe dos outros e pediu para eu posar. Pôs uma flor no meu cabelo e queria que eu dobrasse uma das pernas e fizesse um ar “sexy”. É claro que eu não tinha como fazer um ar sexy para meu próprio pai, daí apenas sorri, mas ele continuava insistindo e ficando cada vez mais frustrado e eu constrangida. Eu só queria desaparecer, ainda bem que apareceu minha mãe nos chamando para ir almoçar e a palhaçada acabou. Outra coisa que eu odiava era que meu pai gostava de dar beslicão na bunda. Na minha, mas também na da minha tia (!!!), que ficava possessa. Como é que um pai dá um beliscão na bunda de uma filha adolescente e isso é normal e ninguém fala nada, nem a mãe, nem ninguém? Ele fazia isso na frente de todo mundo. Em torno dessa mesma idade aconteceu o que eu considero mais grave. Meu pai é médico-pediatra, mas continuava atendendo suas clientes meninas durante a adolescência. Elas faziam check-up com ele, o que incluia que elas ficassem totalmente nuas e ele tocasse a vagina delas. Uma delas era minha amiga na época e dizia que preferia ir no meu pai, com quem tinha confiança desde pequena, do que ir ao ginecologista. Eu não entendia isso, porque meu pai não é ginecologista. O meu pai vivia falando de algumas dessas clientes, de que fulana era “uma morena bonita”, que a outra era “a moça mais bonita da cidade”, etc. Essas meninas tinham 12, 13, 15 anos! Daí veio o dia que eu morria de medo de chegar, era a minha vez de fazer o tal “check up”, porque eu já tinha uns 12 anos, e nessa idade as “meninas tem que fazer check up”. O interessante é que nem minha irmã, nem muito menos meu irmão fizeram check-ups. Eu não queria ir, mas a minha própria mãe me obrigou. E chegando lá tive que ficar completamente pelada e meu pai pôs os dedos na minha vagina e disse algo do tipo “batimento sexual normal”. Eu nunca entendi direito se foi isso e se isso foi, o que significava. Eu só queria desaparecer. Depois desse episódio fiquei ainda mais envergonhada do meu corpo. Embora eu não soubesse na época, acho que foi isso que desencadeu minha compulsão alimentar. Eu sempre tive uma péssima relação com meu pai, não me sentia segura perto dele, pelo contrário, sempre me senti ameaçada, ainda antes desses eventos da adolescência. Era como se eu sentisse que meu próprio pai poderia abusar de mim. Não gostava de olhar para ele, nem de conversar com ele, para não atrair sua atenção (e invariavelmente, sua ira). Hoje em dia, faz uns dois anos que não falo com ele. Me sinto melhor assim, mas não sei bem que nome dar ao que aconteceu. Não gosto do meu pai, mas também não quero inventar coisas sobre as pessoas, mas sinto que fui roubada da minha integridade e que a culpa foi dele. Por muito tempo, aceitei homens roçando em mim, dizendo coisas, me maltratando porque achava que era “normal”. Só depois de adulta, quando conheci o feminismo, é que me libertei. Devo muito, mas muito mesmo a esse movimento, é o que tem me ajudado a recuperar minha integridade como mulher.”
Eu não sei se isso será interessante para a página ou não. Mas mesmo que vocês não postem, eu gostaria de fazer um desabafo pessoal, porque sabemos que quando uma mulher é assediada sempre culpam a vítima, geralmente pelo seu modo de vestir… Uma das coisas que mais tem me irritado ultimamente é a quantidade de material veículado pela mídia, como TV e revistas femininas, ensinando a mulher a se vestir/comportar de maneira sexy, mas não vulgar. Mas espera aí. Vulgar para quem? Por que? Quem decidiu por mim o que é ser vulgar ou não? Isso existe mesmo? Pois se uma mulher que viveu na Idade Média pudesse ver a forma como TODAS nós nos vestimos hoje em dia (até mesmo as que usam saias longas, por exemplo) ela ficaria estarrecida com a vulgaridade de TODAS NÓS! Pois em sua época as mulheres sequer mostravam o pescoço. E eu poderia citar outros exemplos. Mas para ser breve, eu sinto que nos ensinar como vestir/comportar de forma sexy mas não vulgar, é apenas mais uma forma de fazer as mulheres serem aquilo que a sociedade patriarcal espera que sejam. Afinal, eu não lembro de ter feito parte do grupo que decidiu por toda uma sociedade o que é vulgar ou não. Além disso, ainda que eu acreditasse num conceito universal e imutável do que é vulgaridade, eu perguntaria “que problema há nisso?”. Se uma pessoa se veste/comporta de forma vulgar ela não merece respeito por ser um ser humano? E o caráter onde está? Ou uma pessoa vulgar mata criancinha e atropela velhinha? Por outro lado não faltam exemplos de pessoas moralistas que matam, estupram, roubam… Podem publicar meu nome. ************************* Vanessa Hildegard