Cantada 153

153 – Apesar de ter nascido em uma família machista, formada por mulheres que nunca dependeram de homens, sempre tive uma criação que me ensinou a valorização e o respeito. Hoje me vejo obrigada a andar na rua com fone de ouvido, para não arrumar briga com os “homens” que faltam respeito comigo, precisando desviar meu caminho para não passar perto de um grupo com vários homens etc.. Já cansei de ouvir coisas absurdas, que não vou comentar por já ter bloqueado todas da minha memória. Já cansei de tanto chorar por me sentir suja ao ouvir uma voz masculina nojenta sussurrando algo obsceno perto de mim. E essa moda de mulheres frutas só agravou minha situação, pois agora pensam que toda mulher “grandona” é “vagabunda” e isso lhes dá o direito de falar mais. Até hoje nunca sofri algo como tentativa de estupro ou ser apalpada na rua, talvez o fato de sempre andar com amigos homens e raramente sair sozinha tenham ajudado a evitar essa situação.  A minha história: Entrei uma ótima faculdade, onde sempre fui respeitada por todos os meus colegas. Após uma viagem, resolveram fazer um churrasco de confraternização. Uma dia antes do churrasco um calouro que eu nunca havia falado antes veio conversar comigo pelo facebook. Ele começou conversando normalmente, e eu respondendo de forma educada. Até que ele disse que no dia seguinte (o do churrasco) teria uma “surpresa” pra mim. Comecei a desconfiar do que se tratava e comecei a perguntar o que era, pois não gostava de surpresas. Na verdade, era uma forma dele dizer logo que queria ficar comigo e eu dizer que não queria, para não ter que passar por uma situação chata no dia seguinte. Ele insistiu até eu começar a perder minha paciência. Finalmente, uma hora ele assumiu que queria ficar comigo e eu disse que não queria, pois éramos campus (quis ser sutil) e realmente não ia rolar. Ele pareceu conformado, mas começou a dizer o que me observava na faculdade desde que havia começado o curso, o que me deixou bem surpresa, pois eu nunca havia percebido. Começou a dizer o quanto eu fazia comentários inteligentes durante a aula e outras coisas gentis. Agradeci. E achei que a conversa havia encerrado. Foi aí que li a seguinte frase “amanhã a gente conversa e eu vou te convencer as vantagens de ficar com um negão”. Aquilo pra mim já foi a gota d’água. Falei que não ia ficar com ele por não querer e acabou, e que ele me respeitasse, pois eu nunca havia lhe dado ousadia para faltar respeito comigo. Ele não se deu por satisfeito e disse: “Quer saber o que eu também observo? O quanto você é gostosa. Fico olhando suas coxas grossas e imaginando o que eu posso fazer entre elas”. Foi aí que eu fiquei nervosa e comecei a falar o quanto ele era moleque, sem educação. Que ele ficaria só na imaginação, pois eu nunca ficaria com um cara nojento como ele, que estava tentando ser educada, mas na real o problema era ele. Confesso que não lembro tudo que falei, mas passei um bom tempo dando lições de moral. Após todo o meu desabafo, ele solta a seguinte pérola: “Vocês mulheres reclamam que nós mentimos dizendo que olhamos para o sorriso de vocês. Aí quando um tenta ser sincero e fala a verdade, dizendo que está olhando para a bunda, vocês também reclamam” Já estava exausta de tanto digitar e chorar por me sentir suja e invadida, pois foi a primeira vez que alguém teve a ousadia de faltar com respeito na minha frente. Falei para ele dizer para a mãe tudo que havia me dito e perguntar o motivo d’eu não querer a “sinceridade” dele. E também que se ele fosse um homem de verdade, olharia o sorriso de uma mulher e o seu caráter. Não estaria se importando com a bunda e as coxas. E caso ele não saiba, o meu caráter é bem superior ao meu tamanho físico. A única coisa boa foi que hoje ele aprendeu a me respeitar!  P.S Esse mesmo cara tentou agarrar minha amiga no elevador. Infelizmente, ela não tomou providências.