Cantada 159

[um caso um pouco diferente, mais longo e bem mais sério, envolvendo conflitos familiares]   159 -vou mandar um caso que eu sempre quis comentar e nunca consegui, com ninguém. Como vcs estão postando casos “diferenciados”, achei válido postar.  Quando eu era pequena, sempre foi me dito que meu pai, por ser policial, era bondoso, legal, etc. Quando fui crescendo – isso já pros 8 anos – vi o quanto meu pai maltratava meu irmão por motivos estúpidos, preconceitos ridículos e infundados. Meu herói virou nada de um ano pro outro, e isso nos afastou bastante. Não sei se foi depois disso, mas meu pai, quando bebia, tentava se “reaproximar”.  Eu tinha uns 10 anos quando ele começou passando a mão nas minhas pernas, dizendo que eu estava crescendo. Tinha mania de passar a mão na minha bunda e nos meus seios. Dizia que eu estava crescendo e ficando bonita, me chamava pra ficar perto dele quando bebia pra passar a mão em mim. Incomodada, comecei a me trancar mais tempo no meu quarto e tinha vergonha de sair de casa porque “mulher que fica muito tempo fora de casa é puta”. Tinha imensa dificuldade em fazer amigos e ainda assim não podia ir pra casa deles, então passei boa parte da minha vida trancada no meu quarto. Ocasionalmente, quando saía, independentemente do horário, eu pegava ele assistindo pornô na sala. Ele retirava depois, mas não parecia se incomodar. Não escondia direito suas revistas pornográficas e tinha “escondido” (numa gaveta acessível para meu irmão e para mim) fotos íntimas dele com a minha mãe.  Um dia, como é de se esperar, os avanços viraram amassos forçados, sempre com as desculpas de que eu era muito bonita e parecia muito com a minha mãe quando ela era mais nova. Um dia, depois de 1 ano aturando essa situação (aos 11 anos) fui falar com a minha mãe e dizer que incomodava. Ela se trancou no banheiro e começou a chorar, e disse que a culpa era minha por usar roupas curtas dentro de casa (onde eu moro faz 27 graus constantemente, a mínima aqui é 23). Quando reclamei diretamente com ele, ele disse que fazia isso porque eu era bonita. Era um elogio.  Fiquei até os 14 anos usando diariamente, na minha própria casa, jeans e camisas de político. Usava jeans largos, feios, colocava blusas feias, não cuidava do cabelo e, por ficar muito tempo dentro do quarto, engordei além da conta. As pessoas me achavam horrorosa, mas isso não era nada perto da segurança que tinha de meu pai não me incomodar. Gostava de ser feia pois assim não recebia assédio dentro de casa e nem fora. Um dia, mesmo “estranha”, um amigo meu me pediu em namoro. Eu senti um medo irracional e rompi a amizade com ele somente por aquilo. Disse que não e nunca mais falei com ele.  Meu pai tinha/tem a mania de xingar tudo. Todo fim de semana bebia e xingava minha mãe de burra, idiota, etc., culpava ela por tudo de errado no mundo e de quebra aproveitava pra falar mal de mim e do meu irmão. Ele dizia alto e em bom tom que éramos uma família de idiotas, com um filho vagabundo e uma filha sapatão. Naquele momento eu realmente queria ser ‘sapatão’. Achei que sendo ‘sapatão’ ninguém se incomodaria com a minha presença. Comecei a me cuidar um pouco, mas sempre com atitudes de “macho” e gírias de “macho”, e eventualmente os conservadores ficavam intimidados. Meu pai incluso.  Um belo dia ele veio me enfrentar por ser “sapatão”. Eu fiquei calada e falei somente que ele não sabia do que tava falando. Ele não ficou contente, claro. Foi beber e eu fui tomar banho. Ele aproveitou pra falar de mim, que eu era uma inútil, vagabunda, sapatona, idiota, burra… E aproveitou a deixa pra falar da minha mãe também. Quando saí do banheiro (que ficava de frente para o quarto dos meus pais) vi minha mãe com a arma dele na boca, tentando atirar, mas não tinha bala no revólver. Meu mundo caiu ali. Eu prontamente voltei pra sala e falei todas as obscenidades do mundo pra ele. Todas as coisas ruins que estavam presas. Tudo. Ele tentava responder e eu respondia falando dos maus tratos dele e além. Só me contentei quando o vi chorar por um bom tempo.  A tortura se reverteu: Todo fim de semana que ele bebia eu ia na sala pra falar o quanto ele era um merda. Maltratei ele por uns seis meses. Até o dia que ele se rendeu, desabou e começou a pedir desculpas pra todo mundo. Às vezes bebia e imediatamente chorava. Passou a fumar o dobro, beber o triplo e chorar todo o fim de semana, mesmo depois de eu ter parado de maltratá-lo, arrependida do ponto que tinha chegado.  Já com 16 anos, estudando num colégio distante da minha casa e com frieza o suficiente pra tentar resolver a situação, parei pra conversar com ele e perguntar por que ele fazia aquelas coisas. Mas não de uma forma intimidadora, só queria entender. Não foi da noite pro dia, mas ele falou de todas as frustrações que teve na polícia, como ele lidava diariamente com gente ruim e como isso acabava afetando ele também. Ele acabava aplicando “interrogatórios” torturantes em mim, meu irmão e minha mãe pra achar coisas que só existiam na cabeça dele. Ele não confiava mais em ninguém. Continuamos conversando sobre os medos, as angústias, os preconceitos, a baixa autoestima dele por dois anos a fio. Ficamos muito amigos com o tempo, de uma forma que eu jamais imaginaria que fosse acontecer. Com 18 anos, vi meu pai largar a bebida e o cigarro (e as lágrimas). A violência em casa cessou. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida… Mas neste auge da felicidade, minha mãe me jogou um “é por isso que ele assedia você, olha só como você dá brecha pra ele”. Me senti imensamente mal depois dessa frase e voltei a me isolar. Descobri posteriormente os ciúmes infundados da minha mãe, e o quanto isso nos afetava e que parte do que acontecia comigo também era fruto dela falando o quanto eu era puta por usar shorts curtos. Fiquei com um misto de raiva e indignação que demorou muito pra passar.  Passei minha vida inteira praticamente tentando resolver minha família quebrada, que sempre veio em primeiro lugar. Tive uns namorados a partir dos 15 anos, mas nenhum nunca se envolveu com minha família, mesmo comigo com 24. Atualmente minha mãe se tornou adepta do feminismo e partilha muitas ideias; meu pai se aposentou da polícia e melhorou ainda mais. Ainda não é tudo um mar de rosas, mas são problemas que tenho certo prazer em resolver quando me recordo da angústia e do medo que passei a vida inteira. Ainda tenho vergonha de trazer amigas minhas pra casa, ainda temo em me aproximar do meu pai e minha mãe ache que eu estou dando em cima dele ou ele pense isso também… Mas aprendi a ser estritamente racional e não deixar essas coisas abalarem minhas estruturas. Mas ainda dói, ainda fere. Ainda dá medo de muitas pessoas.  Contei tudo isso aqui porque guardei por anos a fio, sem contar com detalhes, de todos da minha vida. É bom ter um lugar pra desabafar.  (E desculpa tanta coisa, um texto tão grande, não sei nem se será postado e já reescrevi esse texto bastante, mas acho que só vou conseguir tirar isso de mim quando enviar pra alguém mesmo)