Cantada 162

162 –  Oi. Vendo os outros depoimentos, embora eu já tenha contado um caso, lembrei de mais dois que aconteceram quando eu era criança e que, honestamente, eu fico com nojo só de lembrar por isso não quis contar antes.  Um deles eu tinha uns 10 anos e eu estava sozinha em casa. Minha mãe tinha saído pra ir pra feira. Como morava em prédio e quase ninguém de fora entrava, quando bateram na porta, eu achei que fosse a minha mãe e corri pra abrir. Só que era um cara que nunca tinha visto, dizendo ser vendedor. Tentei fechar a porta após dizer que não queria nada, mas ele segurou e empurrou, forçando pra entrar. Depois que ele entrou, tirou da bolsa umas frases de salmos (daquelas de plásticos pra colar na parede ou no carro) e segurou na minha mão, colocou minha mão no peito dele, e começou com um discurso sobre como Deus era isso e aquilo. Ficou um tempo falando isso e eu morrendo de medo. Uns minutos depois, ele me disse que eu era bonita e deveria agradecer e tal. Nessa hora eu gelei, tive certeza de que ele faria alguma coisa comigo. Só que, pra minha sorte, ele pediu pra ir ao banheiro. Eu falei onde era. Assim que ele entrou, eu saí correndo do apartamento gritando pros vizinhos. Dois deles entraram na minha casa e tiraram o cara do prédio. Eu nunca tinha contado essa história pra outra pessoa além dos meus pais (que me apoiaram e tentaram me acalmar e providenciaram varias coisas de segurança que eles também não achavam que precisava, porque morávamos em prédio), porque sempre me sentia culpada e burra por ter aberto aquela maldita porta. Por um bom tempo, sempre pensei que a culpa tinha sido minha. Foi uma p*ta ingenuidade, e hoje eu sei que o nojento foi o cara, mas por um tempo eu me senti uma idiota.  A segunda vez, eu estava no metrô indo pro colégio (tinha uns 14 anos), que tinha um uniforme comum, camiseta e calça, e um cara começou a se esfregar em mim. Eu fiquei com tanta raiva e a ideia de que algo ruim já tinha acontecido comigo antes por “burrice minha” fez com que eu surtasse. Usei meu fichário pra bater no cara, comecei a gritar no vagão e o cara saiu na estação seguinte me chamando de louca. Quando chegou a minha estação, fui correndo pra escola e, depois que cheguei, fiquei um tempo chorando no banheiro. A sensação de ser “culpa minha” foi a mesma. Hoje, vendo o quanto a maioria das histórias são com crianças/adolescentes, eu resolvi aproveitar pra desabafar também. E vi que, felizmente, eu nunca fui repreendida por familiares ou culpada por eles pelas situações, sorte que muitas outras pessoas não tiveram. Enfim, agradeço de novo a oportunidade e parabenizo de novo pela iniciativa.  C.