Cantada 164

164 – Não é cantada, mas vendo que algumas das pessoas que relataram seus abusos também aproveitaram para desabafar coisas mais “pesadas” eu também gostaria de tirar este fardo de meus ombros. Quando eu tinha 16 anos fui a uma festa na casa de um amigo. Lá, a vodka, a cerveja, o vinho e, até mesmo, o absinto, estavam liberados. Eu namorava um carinha na época e nós ficamos lá, juntos, bebendo muito porque essa era a graça, afinal. Sei que, lá pelas 3 da manhã, tivemos uma briga boba e o cara foi embora, me deixando sozinha para ir pra casa. Eu morava a cerca de uma hora de distância, a pé, da casa do meu amigo, e como todo mundo tava meio desmaiado de tanto beber eu decidi ir sozinha mesmo, decisão tomada pelo excesso de bebida, claro. Fui cambaleando pela avenida até minha casa. Era uma avenida escura, cheia de árvores, bastante movimentada durante o dia, mas àquela hora, deserta. Não lembro muito bem, mas sei que tinha bebido muito absinto, e ficava tendo uns apagões, andava um trecho, depois parecia me dar um apagão e eu já estava em outro. Alguns carros começaram a passar e mexer comigo, buzinar, gritar coisas, porque eu estava mesmo muito mal, e ainda por cima, era de uma “tribo” de góticos, portanto meu vestido preto e minha maquiagem chamavam bastante atenção. Sei que encontrei um conhecido no caminho, parece que ele tava indo pra festa ou alguma coisa do tipo, só sei que ele se ofereceu pra ir comigo até em casa e eu, bem boba alegre, aceitei. Nem percebi que a gente desviou e foi indo por um caminho mais escuro, toda tonta, fiquei tagarelando sobre futilidades, até que a gente chegou num lugar bem escuro com bastante mato e ele puxou minha mão e falou pra gente sentar um pouco e conversar, que eu tava muito bêbada, precisava descansar um pouco senão ia vomitar, algo do tipo. Quando eu sentei ele já veio pra cima de mim, e era muito forte, eu lembro que parece que minha bebedeira sumiu na hora, tentei afastar ele, mas não consegui, ele conseguiu arrancar a minha calcinha e tentou me penetrar, mas eu era virgem e, por algum motivo, parece que não passava, como se ficasse “entalado” lá, só sei que a dor era horrível, parecia uma faca me cortando, comecei a gritar e chorar, ele tapou minha boca com a mão e tentou mais, não sei porquê, mas não entrava, no fim, ele acabou se esfregando em mim até gozar, aí ele levantou, falou que eu era uma puta e que se eu falasse qualquer coisa ele ia contar pro meu namorado que eu tinha dado pra ele, que todos os meus amigos iam saber que eu era puta, que era pra eu pensar bem antes de falar merda. Ele me ajudou a levantar e foi pra festa. Fui pra casa chorando o caminho todo, a minha vontade era de vomitar, mas não só por causa da bebida, por causa de tudo, acho. Cheguei em casa totalmente lúcida, fui tomar banho e, uma coisa que nunca vai sair da minha cabeça é o chão do boxe ficando marrom, porque a minha bunda estava cheia de terra do atrito com o chão. Por fim, só contei para o meu marido isto o que me aconteceu. Depois de um tempo do acontecido comecei a achar que a culpa tinha sido minha, que eu devia ter me oferecido de alguma forma, que eu devia ter bebido menos, ou ter dormido no lugar da festa, que eu pedi pra ser estuprada. Mas eu não sou a culpada, vítima nenhuma é culpada. Culpada é esta sociedade infecta, necrosada.