Cantada 165

165 –     Decidi publicar esse relato porque conversei com pouquíssimas pessoas a respeito. Não quero que fique tudo enterrado e não sirva, pelo menos, como lição. Apesar de não me sentir traumatizada, serve como alerta pra todas nós.   Trata-se de assédio no trabalho, abuso de poder, escrotidão, o que vocês acharem melhor. Eu tinha 15 pra 16 anos. Trabalhava num órgão municipal como estagiária. Logo no início do período em que eu trabalhava, entrou um novo chefe. Ele era super simpático e tolerante com todos. Alguns achavam que ele era um chefe bonzinho. Ele costumava fazer certas “gentilezas”, como carregar as pastas pra nós estagiárias, alegando que “onde eu estiver, mulher não carrega peso”. Ele buscava estar sempre interagindo com o restante do pessoal. Comigo não era diferente. Ele foi conquistando minha confiança aos poucos (sou uma pessoa tímida e fechada), ele foi criando um terreno propício pra amizade, eu não tinha a menor malícia pra perceber que era tudo estratégia de uma mente extremamente manipuladora. Ele conversava bastante comigo, me “aconselhava” como pessoa mais velha e experiente (ele deveria estar perto dos 40, não sei). Mas então as conversas começaram a ficar muito íntimas, ele queria saber detalhes da minha vida pessoal, eu demorei pra estranhar de todo, pra que a ficha caísse, eu estava lidando com um PSICOPATA e não sabia! Eu cheguei a responder algumas coisas que ele me perguntava (por ingenuidade? Por burrice? Até hoje me martirizo por isso).      Até q num sábado em que o trabalho estava vazio, ele aproveitou pra ir falar comigo na cozinha (que ficava afastada) e lá ele começou a fazer perguntas super invasivas, de teor sexual. Eu fiquei sem saber o que fazer, não queria entrar em detalhes, dava respostas vagas, querendo me esquivar (eu ainda era virgem!), tinha um namoradinho na época, o nojento do chefe ficava querendo saber o que eu fazia e como fazia com meu namorado. Comecei a me sentir tão mal que quis sair, ir embora, ele me acompanhou no corredor, ficava me enrolando, me segurava pelo braço (mas sempre delicadamente) aí ele me abraçou e eu quis morrer de tanto nojo porque ele pressionou o tronco contra meus seios e ainda soltou um suspiro, não conseguia acreditar no quanto eu tinha sido burra confiando na amizade dele, aí pra mim já chegava, vi que ele era um doente, um tarado, quando eu finalmente consegui ir embora ele ainda me disse na porta: “ah, eu acho que não é necessário você comentar nada disso com nenhuma coleguinha” num tom ameaçador. Fui embora com tanta raiva, me sentindo suja, a primeira coisa que fiz em casa foi tomar um banho, depois chorar. Tentei falar pra minha mãe que eu não queria renovar o contrato pra não ter que trabalhar mais 6 meses, mas a gente nunca teve muito diálogo, eu não me lembro nada do que eu contei pra ela, das duas uma: ou ela não deu a devida importância ou eu não soube passar a gravidade da situação. Ela me disse que seria melhor eu continuar trabalhando. Até minha saída do trabalho, eu tive que aturar a tal criatura, mas daí por diante eu só vivia de cara fechada pra ele, acho até que tratei muito bem, ele só merecia desprezo. Tinha esposa (não me lembro se tinha filhos) e nem assim ele pensava em respeitar as funcionárias. Ele era cínico, absolutamente dissimulado, desses que são capazes de se transformar em segundos quando percebem que alguém está por perto. Eu vi que ele estava “treinado” pra isso. Não precisava nem olhar pra saber se tinha outro funcionário chegando, com um mínimo barulho ele já mudava: a postura, o tom de voz, tudo, era outra pessoa. Um dia ele me perguntou se eu tinha alguma coisa. Ele teve a cara de pau de me perguntar isso. Ele disse: “que cara é essa?” e eu respondi: “é a minha cara”, ele julgou a resposta mal criada e me chamou na sala dele, lá eu disse que não tinha nada, daí ele deduziu que eu estava de TPM!!! Fez uma pesquisa na internet e imprimiu algumas dicas para combater os sintomas, veio me entregar como o chefe maravilhoso e preocupado com o bem-estar dos empregados que ele era. (FILHO DA PUTA). Numa outra situação, ele veio de novo questionar o meu tratamento com ele, se fazendo de desentendido, eu acabei falando algo como “a sua figura era como a figura de um pai pra mim, alguém em quem eu podia confiar”, então ele riu da minha cara, gargalhou! Dizendo q eu era tão ingênua e que um dia eu ia entender porque ele fez aquelas coisas comigo, como se tivesse sido um favor pra que eu acordasse pra vida, pra que fosse mais esperta. Fico aliviada em pensar que eu não tenho problemas consequentes dessa história. Me relaciono bem com as pessoas (amigos e namorados que tive). Vez ou outra eu quebro a cara por ainda ser um pouco ingênua, mas continuo acreditando e não me arrependo. Vou sempre esperar o melhor das pessoas, mesmo que apareçam alguns monstros como esse pela frente.