Cantada 167

UM RELATO E UM APELO   167 – Desculpa o tamanho do texto. É um relato e também um apelo.  Como todas, tenho inúmeros casos pra relatar. Mas esse foi o primeiro, quando eu era muito nova pra sequer entender.  Estava andando pela rua próxima da casa de onde morava, devia ter no máximo 10, 11 anos. Era uma rua residencial tranquila, então estava acostumada a ir comprar picolé quase todo dia no mesmo mercadinho. Um grupo de meninos adolescentes vinha se aproximando, rindo e cochichando. Eu nem liguei, sempre brinquei com meninos, não tinha medo. Mas quando eles passaram por mim, um deles passou a mão nos meus “peitos” (eu não tinha nada!) e todos riram e saíram correndo. Até parece besteira contando, mas me senti muito mal. Ainda não tinha como entender exatamente o que tinha acontecido, mas me senti invadida, ferida.. e me senti muito humilhada, pela risada deles, por eles terem feito aquilo comigo. Desde criança eu sempre tive um comportamento interpretado por todos como “masculino”, nos trajes, na linguagem, nos gostos pessoais; passei grande parte da infância e adolescência dizendo pra quem quisesse ouvir que eu “preferia ter nascido homem”. Hoje sei que isso vinha daí, desse conhecimento que temos DESDE CRIANÇAS, desde antes de entendermos sexo e poder, que mulheres estão em uma posição inferior diante da sociedade, que mulheres podem ser submetidas a violência a qualquer momento.. pelo simples fatos de serem mulheres.  Pros homens que ainda vem aqui, pasmem!, defender seu direito de fazer “elogios”: o que esse tipo de história tem a ver com cantada de rua, vocês perguntam? São situações que funcionam com a mesma lógica, a lógica de que mulheres – e nossos corpos – estão na rua para serem apreciados. É a MESMA SENSAÇÃO/IDEIA que faz com que você se sinta no DIREITO de me “elogiar” na rua (E AINDA ACHAR QUE EU DEVA ME SENTIR AGRADECIDA E LISONJEADA!!!) que fez esse grupo de adolescentes se sentir no direito de me tocar. É o sentimento que vocês tem de poder sobre o corpo das mulheres – qualquer mulher, até uma estranha na rua.  Nossos corpos não estão disponíveis. A rua não é uma vitrine, não queremos ser “apreciadas.” Não somos enfeites para os olhos dos outros. É difícil entender que não queremos ser elogiadas? Não queremos o ‘male gaze’ (= olhar fixo masculino) acompanhando e coagindo nossas vidas. Procurem dentro de vocês a origem da ideia que vocês tem de que a mulher deve ser “apreciada/elogiada/louvada por sua beleza”. Não quero saber a opinião de um estranho sobre meu corpo e minha aparência, NÃO IMPORTA que ele me chame de “gostosa” ou “princesa”. Não há diferença entre os termos, não importa o que você diga, não importa sua intenção: a violência está no simples fato de você acreditar que tem o direito de emitir uma opinião sobre meu corpo sem eu sequer te conhecer! Quem é você ? Porque está se dirigindo a mim ?? DESCONSTRUAM ISSO. Quem pediu por isso? Não estamos vivas e nos locomovendo atrás da sua apreciação. Por favor, coloquem nosso DIREITO DE NOS SENTIRMOS SEGURAS acima de um suposto “direito masculino de elogiar”. Entendam o conceito de AUTONOMIA CORPORAL.  Esse é um apelo direcionado aos homens que acham que não estão fazendo nada “demais”, nada “de errado”, que somos “exageradas” porque são tão vítimas da cultura machista quanto nós; foram criados assim, se relacionam com mulheres machistas também, e até hoje nunca pararam para pensar sobre esses temas. Pensem. Evoluam. Vocês foram criados para achar que “estupro e abuso são coisas de psicopatas, EU jamais faria isso”. Mas é justamente a ignorância de vocês que nos fere mais. Não somos abusadas e humilhadas e coagidas só por psicopatas. Mais da metade das vezes são VOCÊS, “Homens comuns”, que nos fazem nos sentir assim. Nossos amigos, namorados, pais, irmãos, ficantes, menino gatinho da balada, colega de faculdade, vizinho, homem que passa na rua, homem que está trabalhando na rua, “HOMENS DE BEM”.  “Elogiar” uma mulher desconhecida na rua é IMPOR sua presença e sua opinião a alguém que sequer te conhece. É uma VIOLÊNCIA, um abuso. Estamos “acostumadas”, mas é ruim toda vez. Toda vez. Toda vez. Toda vez. E são mais de dez vezes por dia, acredite. IMAGINE ISSO SE REPETINDO TODOS OS DIAS DA SUA VIDA, DESDE OS SEUS 10 ANOS DE IDADE. Imagine o medo. A impotência. O nojo. Sentir que vc não tem direito ao seu próprio corpo. A andar EM PAZ na rua.  Seu “princesa” parece tão inofensivo ainda?