Cantada 169

169 – Lendo as centenas de casos compartilhados aqui, o que me deixou mais revoltada não foi a violência (física ou psicológica) que essas pessoas sofreram, mas o sentimento de culpa que sentiram. O meu caso é diferente pelo ponto de vista, eu não encaro como uma história negativa, apesar de que foi extremamente desagradável e eu nunca vá esquecer, e na hora foi assustadora, eu vejo tudo de uma forma positiva, eu tenho orgulho de mim mesma pela forma como reagi. E é sobre isso que eu queria falar. Estava fazendo uma viagem sozinha, sou fotógrafa, e estava em Milão. Há um castelo que tem um parque lindo atrás. Eram umas 5 da tarde mas já estava anoitecendo, era inverno e fazia muito frio, um pouco de neve. Não tenho medo de viajar sozinha, pelo contrário, eu gosto, assim posso fazer minhas fotos. Cheguei nesse lugar e estava na porta do castelo, ia tirar uma foto, quando um homem se aproxima de mim. Estava bem vestido, tinha cara de árabe, mas foi simpático e me perguntou se eu queria que tirasse uma foto minha para mim (já que viajando sozinha fica difícil aparecer nas fotos). Agradeci e disse que não precisava. Ele me perguntou de onde eu era, o que fazia, e se eu já tinha visto o lago do parque, que era lindo pra tirar fotos. Aqui na Europa as pessoas são em geral mais educadas e amigáveis, e respeitam mais que no Brasil, então eu pensei que eu que estava sendo preconceituosa em julgar ele pela raça (a gente sabe que a cultura árabe é mais machista e agressiva), e o lago estava a uns 50 metros, eu via ele da porta do castelo, que tinha guardas. Concordei e fomos caminhando até que ele se oferece para levar minha bolsa (?). Eu só levava a bolsa e a câmera no pescoço, e me dei conta que ele queria me roubar, disse que não e me afastei, ele não me seguiu. Até que eu parei pra fazer uma foto e sinto que alguém chega por trás, com uma mão segura minhas mãos contra meu rosto (eu tinha a câmera na altura dos olhos) e com a outra vira minha cara para tentar me beijar. Por sorte eu estava toda encasacada, e de capuz, e ele beijou o capuz, que ficou entre meu rosto e o dele. Nesse momento eu nem pensei, só reagi, soltei a câmera, cravei as unhas no braço dele que me segurava e de costas mesmo, dei um chute pra trás, nas bolas dele, ele caiu no chão. Eu queria seguir chutando, era minha vontade, uma raiva imensa, mas saí correndo e fui pro castelo. Não havia quase ninguém ao redor e eu não sou louca nem faixa preta… O ponto que eu queria chegar com tudo isso é: Eu, em nenhum momento, nem naquela hora, nem hoje em dia, penso que tive qualquer culpa no que aconteceu. Nós mulheres somos iguais aos homens, em termos de direitos, temos tanto direito quanto eles em andar em um parque, uma rua, uma festa. Eu não acho que provoquei nada, eu não tenho culpa em ser mulher e nem me escondo atrás de roupas largas, eu me visto de forma normal, sem roupas muito curtas ou decotes só porque não é meu estilo, não porque por isso estarei pedindo que me desrespeitem. Mas uma mulher NUNCA deve se sentir culpada por sofrer assédio por ser atraente. Ou deve se envergonhar de quem é. Não somos putas, vadias, vagabundas ou sujas. Isso são eles, os que nos assediam, seres inferiores, nojentos. Esse cara merecia apanhar mais. Eu fico feliz que reagi, e digo, mulheres: não sofram caladas, reajam. Não estou incitando ninguém a sair dando porrada, até porque muitas vezes os homens são mais fortes que nós, mas saber se defender é importante, ainda que com palavras. Eu agora pratico defesa pessoal, porque eu gosto e acho válido, mas se um cara vem se encostar no ônibus, grita, mete a boca, xinga mesmo, pra que ele se sinta ao menos um pouco humilhado, e para que vocês se sintam menos (humilhadas). Desculpem por um relato tão longo, mas com as coisas que li aqui, tinha que dizer isso para vocês. Sejam orgulhosas de quem vocês são. Vocês têm todo o direito de em uma situação de assédio sentir medo, nojo, raiva. Mas se sentir suja? Não. Culpada? De maneira nenhuma. Nenhum homem tem o direito de desrespeitar vocês. E ponto. 😉  Vick