Cantada 172

172 – “Quando eu ainda estudava no “prézinho”, devia ter uns seis anos, havia um grupo de garotos que adoravam perseguir a mim e às minhas amigas na hora do intervalo. Todos os dias eles vinham e nos agarravam, usavam de uma força realmente bruta. Lembro que o garoto que sempre vinha para cima de mim era gordinho, então ele tinha uma força muito maior do que a minha. Ele se esfregava em mim e mesmo comigo e as outras meninas gritando, ninguém se dava conta do que estava acontecendo. Houve um dia em que contei isso para os meus pais e eles foram tirar satisfações em uma reunião da escola. A professora ficou estarrecida, mas disse que isso era impossível (sendo que em todas as vezes isso acontecia na frente dela e parecia que ela nunca ouvia ou deixava de ler o seu jornal para ver o que estava ocorrendo). Como não víamos soluções, combinei com essas amigas de darmos uma surra neles. Sim, com seis anos havia decidido que o melhor, então, seria nos defendermos usando a força. Esperamos pacientemente no pátio e, assim que eles apareceram, fomos para cima com socos e pontapés, do jeito destrambelhado de criança, mas o suficiente para machucarmos. Nunca me esqueço disso e sempre uso de exemplo de como o machismo é ensinado logo cedo às crianças. De como meninos, assim pequenos, já podem absorver a ideia errada de que mulheres são posses de suas vontades e reproduzem as atitudes dos adultos.”