Cantada 179

179 –        “Eu gostaria de contar uma história que não é bem de assédio sexual, mas ilustra bem duas questões intrínsecamente ligadas: a solidão que as mulheres se encontram, desde muito novas, quando confrontadas com a cultura machista, e o racismo que é parte inerente desta cultura.          Quando eu tinha uns 10 anos, fui numa festa infantil com minha família. Lá os meninos resolveram que as meninas deveriam desfilar para eles, acho que era época da novela Top Model, então o universo feminino se resumia a isso. As meninas brancas desfilaram e foram aplaudidas pelos meninos, também todos brancos, mais ou menos da mesma faixa etária. Eu achei que eu também poderia participar da “brincadeira”. Muitos adultos diziam para mim que eu era bonita (embora eu jamais conseguisse um par para dançar comigo voluntariamente nas festas do colégio). E entrei na “passarela”. Mal pisei e ouvi vaias e xingamentos: “sai daê, macaca!”, “cabelo ruim!”…e por aí…fiquei tão constrangida e extremamente triste…          Mas o pior vem agora: já me sentindo um lixo, caí na besteira de dizer o que aconteceu pro meu pai, que rispidamente respondeu: “cale a boca! Não diga isso! Não aconteceu nada disso, você está inventando! Você sempre foi mentirosa!”. Eu fiquei absolutamente passada. Nessa idade eu já tinha sido humilhada várias vezes pelo meu pai, mas a gente quando é criança tem sempre a esperança de que nossos pais irão nos defender. Fui correndo contar para minha mãe que se limitou a dizer “ah, esquece isso, deixa pra lá, não foi nada…e quem mandou você pisar na tal passarela, hein?”. Nesse momento eu me senti como se fosse órfã. E eu tinha pai e mãe.          Desde muito cedo ficou claro pra mim que, quando se trata de homens nos ridicularizando, eles sempre tem razão, perante a sociedade. É só reclamar que está sendo assediada para um policial, para que ele ria da sua cara. As pessoas não levam esse assunto a sério ainda. A gente aprende desde cedo a aceitar passivamente o assédio porque aprende que reclamar dele vai nos expor ainda mais a humilhações. Aprende que devemos agradar aos homens, para que eles não nos ridicularizem. E que estar “fora do padrão”, ou seja, não ser branca, do cabelo liso, já é meio caminho para essas humilhações acontecerem. Ainda me dói muito quando eu lembro desse episódio. Como crianças tão pequenas já dispõe de todo o arsenal machista e racista e como os meus próprios pais colocaram a culpa pelo acontecido em mim, não expressaram a menor empatia pela minha tristeza e ainda fizeram pior. Triste.”