Cantada 181

181 –         “Quando eu tinha 8 ou 9 anos, meu irmão fazia escolinha de futebol à noite na AABB de Santos-SP. Eu era uma menina muito tímida, feinha, usava óculos grossos. Eu gostava de ir com ele e arrumava mil coisas para fazer: tinha curso de xadrez, de origami, de dança, tinha quadrilha em junho, corridas de coelho na páscoa, gincanas. Mas na maioria das vezes eu ficava na biblioteca, lendo Monteiro Lobato. Lembro também de ficar fazendo hora brincando nas escadas com o porteiro. Não sei a idade dele, era um homem de cabelos brancos. Ele era muito atencioso e carinhoso comigo. Mas começou a apertar demais. Não sabia o que era, mas eu fugia daqueles abraços esquisitos. Um dia eu decidi que não queria mais ser amiga dele. Fugia o tempo todo, ficava de olho onde ele estava para não ficar por perto, me escondia. Passei a evitar ir ao clube e, quando ia, ficava grudada na pessoa que tinha me levado. E ninguém nunca soube por que eu não queria mais ser amiga dele.         Uma coisa interessante é que eu apaguei isso da minha memória a vida toda. Num momento em que o assunto ficou recorrente, comentei que eu achava que tinha sido abusada, lembrava de ser amiga do tal porteiro e de repente não querer mais contato com ele. Um dia, a cena voltou inteira. A sala tinha paredes de madeira. Tinha um sofá de couro. Ele me sentou no colo dele e me beijou. Ele tremia, como um velho, ou talvez estivesse muito nervoso com o que estava fazendo. Sei é que não gostei, não achei que fosse carinho ou qualquer coisa que eu pudesse confundir e tratei de me defender. Passei a evitar ir ao clube e não chegar perto dele, caso não conseguisse ficar em casa, Mas apaguei a cena, não podia ficar lembrando. Quando voltou, foi de uma vez.         Não reagi, não contei para ninguém, mas tratei de me defender. E joguei num cantinho bem escuro da memória para nunca mais pensar no assunto e vir a achar que eu tinha alguma culpa ou tinha provocado ou algo que o valha.         Um abraço a todos”