Cantada 183

183 – “Assim que vi a página, pensei que tinha alguma sorte nesse mundo, pois não consegui lembrar, de imediato, de mais do que dois casos ocorridos comigo. Infelizmente, conforme fui lendo os depoimentos, as memórias foram surgindo e esse número dobrou, triplicou, de repente percebi que eram muitos casos, porque mesmo os “mais leves” têm seu peso no montante… e decidi contar uma das situações.  Há alguns anos, eu estava no ônibus, à noite, lendo, quando comecei a me sentir observada. Levantei os olhos do livro e dei de cara com um “coroa” sentado no banco da frente, me olhando. Pro meu azar, ele era muito parecido com um amigo do meu pai, e quando perguntou meu nome, respondi mecanicamente, meio confusa, achando que ele queria confirmar que era eu, sabe? Mas assim que olhei direito o rosto dele, percebi que definitivamente eu não o conhecia e me arrependi de ter dado atenção, porque o babaca achou que eu tava “na dele” e já quis vir pro espaço vago ao meu lado, onde eu prontamente coloquei minha mochila enorme.  Como eu disse, era um homem mais velho. Bem arrumado, camisa social, grisalho, com corte de cabelo moderninho, e se achando O garotão. Aí começou a ladainha: “mora por aqui? Você tem os traços lindos… tá vindo da escola (ESCOLA, cara?)? Posso me sentar aí do seu lado?” Eu disse que não estava interessada, voltei a olhar fixamente pro meu livro, mas ele insistia, chegava mais perto.  O ônibus estava quase vazio e o cobrador, totalmente alheio a situação (creio eu). A partir de certo ponto, ninguém mais entrava no ônibus, pois ele se dirigia à parada final. Os poucos passageiros que restavam no fundo foram descendo. Ele continuava perguntando mil coisas, e comecei a ficar com medo dele não desistir nunca e vir pra cima de mim, sei lá, e se eu gritasse e o cobrador não fizesse nada? Pessimismo meu, mas havia essa chance. E eu não queria descer, com medo dele me seguir, pois no trecho restante todos os pontos eram geralmente vazios naquele horário.  Por fim, simplesmente mantive a calma e passei a dar respostas falsas, na esperança dele achar que podia me contatar depois e ir logo embora. Dei um sobrenome comum, falei que morava em outro lugar, trabalhava lá na puta que pariu e que meu e-mail era aquele ali mesmo, claro, claro. Quando perguntou quantos anos eu tinha, acabei mentindo um número bem próximo da minha idade verdadeira: “22”. E como se as coisas não pudessem piorar, o cretino ainda respondeu: “NOSSA!! Achei que tinha uns 15 ou 16…”. Pedófilo imbecil.  Felizmente ele desceu bem antes da parada final – que era até onde eu iria se fosse o caso, lá certamente teria gente – ainda perguntando se eu não queria ir junto, tomar uns drinks e aproveitar a noite. Pfff.  Ele não usou força, não veio pra cima, e ainda assim eu desci do ônibus tremendo e assim fiquei por um bom tempo. E aí eu leio agora, na internet, um relato da menina que reagiu ao bêbado no ônibus e o cara gritou, indignado, que NÃO ENCOSTOU NELA. Porque aí tá tudo certo, né? Com certeza esse babaca “polido” do meu caso pensou da mesma forma, afinal, ele não encostou um dedo em mim. Como se INTERROGAR insistentemente uma menina (achou que eu tinha 16) visivelmente constrangida dentro de um ônibus vazio não fosse a porra de uma agressão…  Depois ainda fiquei pensando se abordar estudantes no ônibus era uma estratégia do cara, e se alguma garota mais nova e deslumbrada caiu nessa. Duvido muito que eu tenha sido a única…”