Cantada 184

184 – “Olá, queria narrar alguns fatos… Quero dizer que fiquei muito feliz com essa iniciativa. Ela ajuda a todxs perceberem que cantada de rua é realmente agressão. Hoje em dia eu não ouço mais cantadas de rua. Acho que é porque engordei demais, mas na minha infância e adolescência sofri demais com isso. Morria de medo de sair na rua às vezes. Quero contar algumas situações que aconteceram comigo e que me marcaram muito, não me traumatizaram, mas eu nunca me esqueci de nenhuma delas, me lembro com detalhes. A primeira de que me recordo, foi quando eu tinha uns 11 anos. Eu estava com uma amiga brincando de bola na rua quando a bola caiu perto de um cara. Ele estava encostado no muro e disse: “oi, meninas!” aí eu respondi: “oi”. Quando eu voltei pra perto da minha amiga, ela me xingou falando que eu não tinha que ter respondido e eu perguntei o porquê. Aí que ela me contou que o cara estava se masturbando enquanto nos olhava. Eu não tinha visto, mas me senti péssima. Outra situação aconteceu quando eu tinha uns 13 anos e estava andando com umas amigas. Um cara em uma moto parou para pedir informações. Eu e outra amiga chegamos mais perto para falar com ele. Só que enquanto ela explicava, eu vi que o cara estava com o pênis para fora da calça. Ele ouviu a explicação de como chegar no lugar onde ele queria, agradeceu e virou a moto para o lado contrário do que falamos que era para ele ir. Só que quando eu contei para as minhas amigas, elas não acreditaram que o cara tinha feito isso. Além de passar por essa situação horrível ainda fui tida como mentirosa… A última, dessas situações piores, de que me recordo foi quando eu tinha uns 15 ou 16 anos. Estava subindo a rua para ir para a escola, às 7h da manhã quando um carro parou do meu lado pedindo informações. Comecei a explicar quando vi que o infeliz estava com as calças no joelho. Aí só fechei a cara e saí andando. Teve uma outra que me aconteceu em casa, eu tinha uns 14 anos ou menos. Morava com minha mãe e o marido dela. Um dia, ela não estava em casa e eu, deitada com ele vendo TV. Aí uma hora, quando cheguei perto dele, encostei em uma coisa e me assustei, perguntei: “o que é isso?” Ele disse: “nada não!”, mas aí eu percebi que era o seu pênis! Ele estava deitado debaixo das cobertas comigo pelado! Eu o considerava como um pai… Fiquei com muito nojo e lembrei que minha irmã (10 anos mais velha que eu) tinha me avisado para eu tomar cuidado com ele. Foi horrível mas nunca contei isso para ninguém… Essas foram as piores, que me marcaram mesmo, mas quando eu era nova gostava de micaretas e em todas essas festas eu tinha que bater em um cara para ele me soltar, era raro quando isso não acontecia. E várias vezes já tirei meninas das mãos de caras também. E isso era e ainda é comum nessas festas (hoje tenho horror a elas). Os caras acham que, se a menina está nesse lugar, tem que se submeter. É absurdo! Nenhuma dessas situações me traumatizou, mas não me esqueço de nenhuma, me senti mal em todas elas, foi horrível ter que passar por isso… Ah, gostaria de ficar anônima, tá? Obrigada pela iniciativa, não achei que fosse sentir nada de mais, mas escrever essas situações me aliviou de um peso…”
Ótimas dicas para lidar com as cantadas: “Aproveitando as experiências ruins que tive, acabei desenvolvendo algumas técnicas pra me livrar de certas cantadas. Talvez fosse válida partilhá-las: Quando um homem lhe “canta” e você não está afim, não ache que ele vá notar pela sua cara de zangada – alguns costumam até achar que é somente timidez e vão insistir até conseguirem. Não tenha medo: A maioria dos homens não querem ser chamados de estupradores/pedófilos ou algo do gênero. Então deixe claro, de forma polida, que você não quer. O primeiro passo é tentar não ver aquilo como uma ameaça, mas como um convite, como eles mesmos dizem. E recuse-o educadamente. Sei que muitas vezes nos sentimos invadidas neste tipo de situação, mas se continuarmos nos sentindo invadidas e tentarmos nos esconder, apenas gritar quando estivermos em nossos limites, vamos continuar sendo taxadas de “malucas”. Em ônibus, quando um rapaz senta-se ao meu lado: – Licença, moço, mas eu não estou num bom dia e não tenho cabeça pra conversar com gente que eu não conheço e realmente gostaria de ficar sozinha. – Moço, eu vou para o outro banco, foi legal conversar com você, mas realmente quero ficar sozinha por questões pessoais. Alguns rapazes, quando você sutilmente insinua que eles estão lhe forçando a ficar lá, e claramente ficando incomodada, perdem a compostura. A melhor reação é não temer: Você é forte, mulher, tão forte ou mais quanto aquele que te aborda. Encare-o nos olhos e diga com a mesma convicção que ele que você não quer. Não tem barreira melhor que a confiança, e nem o agressor gosta de se sentir rejeitado. E até agressores se sentem diminuídos com pessoas firmes. Com a mesma convicção que ele diz sim, diga não. Quando estou de bom humor, uso a conversa reversa: Quando o cara quer insistir demais, eu faço perguntas aleatórias com ele, sempre de forma respeitosa, e ele fica tão ocupado em falar de si mesmo e das coisas que perguntei que esquece de me cantar: – Você viu que absurdo o caso xxx do jornal? – Eu tenho muito medo/gosto muito dessa área que estamos passando por causa de xxx. O que você acha? Quanto mais chatas/políticas as perguntas forem, melhor, porque além de abrir espaço para uma discussão que pode ser boa, os caras que só querem saber de sexo ou de lhe cantar lhe taxam como uma “chata” e vão achar que a única coisa que vai sair de você são “chatices” e “reclamações”. Já converti algumas cantadas em conversas calorosas e interessantes, e outras em silêncios constrangedores. Se eles insistirem em perguntas pessoais “mas e você, mora onde?” insista nas perguntas/respostas políticas Não estou dizendo que todos os caras vão seguir, tem uns meio malucos que podem tentar te agredir e ignorar tudo isso, mas mesmo estes vão ter um pé atrás porque vão perceber que estão errados desde o início e você não vai se passar por “louca que explodiu de uma hora pra outra”, podendo obter, inclusive, ajuda das pessoas próximas. Assim como aprendemos que o que eles fazem é errado, devemos aprender a não baixar a cabeça e nos calarmos. “Não” não significa gritar, apontar, chamar de estuprador. Mas significa “Moço, você está me incomodando, pare.”. Quanto a amigos íntimos que de uma hora pra outra começam a encher o saco com cantadas, aconselho ser direta. Se incomoda você, ele deve pensar nos seus sentimentos TANTO quanto você pensa nos dele. Um grande amigo meu um dia disse que adorava conversar comigo porque eu era gostosa. E eu disse, literalmente, “Desculpa, mas você não vai me comer”. Ele me olhou assustado, se desculpou, disse que não era o que ele quis dizer, e eu imediatamente disse que não era obrigada a escutar aquilo e esperava outra postura dele. E, assim, ele se afastou um pouco, mas depois retomamos a amizade com os limites que eu determinei. É uma mudança meio chata, mas que é melhor pra todos: Ele precisava aceitar a rejeição e eu precisava deixar claro que não gostava. Claro que ele ficou mal. Mas ele estava me deixando mal e não parecia se incomodar com isso, então julgo que ele não se ofenderia se eu machucasse ele um pouquinho, afinal ele já me machucou algumas vezes e nem por isso eu mandei ele pra PQP. Se for meu amigo, vai entender; se não, me livrei de um incômodo e não vai fazer falta. Vamos fazer a nossa parte também sendo firmes com nossos pensamentos. Chega de pensar nos sentimentos de quem não pensa nos nossos. Quanto mais clara e lógica formos, esse tipo de pessoa com chantagem/agressão psicológica diminui. Outras frases rápidas pra cantadas de ruas: – Eu não quero, me respeite. – Você está me incomodando. – Pare, eu não lhe dei essa liberdade. – Eu não estou interessada. – Pare de agir como um vendedor. – Pare de ser um imbecil comigo. – Vá se foder. – Você não vai me comer. – Eu não vou nem quero sair com você. – Pare de me forçar a sua presença. – Procure outra pessoa. – Pare de ser canalha. Em casos mais graves, lembrar-se de ser firme: Diga o que você vai fazer por você (eu vou sair daqui, eu não gosto e estou incomodada) e acuse-o (você está incomodando, você está sendo chato). Quando o cara ultrapassou o limite da cantada-convite e partiu para o cantada-agressão (recusando todos os seus nãos), não tem por favor que retire ele dali. Mas tem outras palavras, tipo “vá pra puta que o pariu”. Enfim, espero que seja útil de alguma forma.”