Cantada 190

190 –  “Já aconteceram inúmeros casos de assédio comigo nas ruas, desde cantadas, gritos, passadas e mão, etc. Hoje eu já me acostumei, o que é triste e errado; não deveríamos nos acostumar com o que nos oprime, faz mal, humilha, mas é a opção que temos para não sofrer tanto, fazemos do mal algo banal.  Enfim, o caso que vou contar aconteceu quando eu tinha 16 anos, estava andando na calçada no centro da minha cidade com a minha amiga, também da mesma idade, tinha bastante movimento, muitos carros, mas já era de noite (nossos pais nunca nos deixavam sair de noite porque era ‘perigoso’). Eu e minha amiga estávamos de short e blusinha, e o calor era imenso, quando percebemos que duas motos nos seguiam (isso em pleno movimento), andavam bem rente a calçada e olhavam para nós sem disfarçar. Começaram a gritar coisas do tipo: “ei gostosas”, “pra que essa vergonha”, “que bunda”, “quais os seus nomes”, etc. Não demos bola, nem sequer olhamos de volta, quando percebemos que as duas motos pararam rente a calçada (nem era permitido estacionar ali) e saíram atrás da gente, interromperam nossa caminhada e começaram a falar ‘mas qual o seu nome?’, ‘não vamos fazer nada, não precisa ficar com vergonha’, isso segurando nossos braços. A gente tinha 16 anos, eles deviam ter quase 30, havia muito movimento e ninguém fez nada, nem pararam para ajudar. Eu e minha amiga saímos correndo e voltamos pra casa. Hoje (tenho 20 anos) não posso caminhar na rua porque é ‘perigoso’ mas meu irmão, que é mais novo que eu, pode. Não me digam que não existe machismo, porque eu nasci com ele (meu pai sempre foi extremamente machista e minha mãe, bem, eu só lembro dela com medo) e convivi e convivo com isso até hoje. Esse foi apenas um caso, mas existem vários outros que ocorrem desde que me lembro de estar viva. O feminismo conquistou muitas coisas, mas nossa luta ainda está longe de acabar.”