Cantada 191

191 – “Essa história aconteceu quando eu tinha 16 anos e fui aprender a mergulhar. Cada aluno mergulhava com um instrutor que o guiava pela mão debaixo d’água. Teoricamente o contato era sempre feito por sinais com a mão, se você estivesse fazendo algo de errado ou se quisesse sair. Os instrutores iam chegando e pegando os alunos aleatoriamente para levá-los a água. Um instrutor que tinha entre 40 e 50 anos me escolheu, foi simpático e conversou um pouco comigo antes de entrarmos, mas nada demais. Já embaixo d’água, ele nos afastou do resto do grupo. Pelos sinais da mão perguntou se estava tudo bem e eu respondi que sim. Então ele soltou minha mão para ajeitar meu corpo, coisa que ele deveria apenas ter me avisado para que eu pudesse corrigir sozinha, colocou uma mão sobre as minhas costas pressionando para baixo e a outra na minha coxa pressionando para cima. Depois disso, deixou a mão na minha coxa mesmo e não voltou a pegar na minha mão. Um tempo depois movi bastante minhas pernas afim de que ele soltasse e assim que ele soltou peguei em sua mão novamente. Não adiantou nada. Ele foi arrumar meu corpo de novo, mas dessa vez deixou a mão na parte interna da coxa, roçando a virilha. Não sabia o que fazer; me senti muito abandonada, ali, no meio do mar com aquele estranho me assediando sem poder sair correndo, sem poder gritar, sem poder fazer nada. O nosso tempo acabou e ao chegar mais perto do grupo ele tornou a pegar na minha mão. Quando saímos da água ele agradeceu a aula, disse que eu era muito linda e foi embora. Não conseguia olhar pra ele e silenciei. Minha decepção foi saber que mesmo depois, em terra firme, não tive coragem de gritar, nem sair correndo. Parecia que não cabia, que era escândalo à toa, que já tinha passado e eu não tinha como provar. Hoje sei que a luta vale a pena e que se está debaixo d’água presa a um assédio, basta sair, que eu tinha o poder de pará-lo e que eu tinha o direito de gritar. Sei que em muitos casos não há saída possível. Mas o que me preocupa também é quando há saída, mas nós não temos coragem de usá-la. Nunca tive coragem de contar essa história. Hoje resolvi gritar. ”  Julia.