Cantada 194

194 – “Sábado passado passei por uma situação angustiante. É claro que eu já havia sofrido machismo e racismo, mas de forma isolada e nunca no mesmo momento e pela mesma pessoa.  Estava na frente do shopping onde eu trabalho esperando pelo meu namorado. Um carro passou pela minha frente com um cachorrinho lindo latindo pra um grupo de pessoas, eu dei risada, para o cachorro é claro. Acontece que as pessoas que estavam atrás de mim era um grupo de homens. Os primeiros passaram por mim normalmente mas o último da fila continuou dando risada e passou a mão no meu braço. Quando ele virou pra trás pra falar alguma coisa eu nem deixei ele abrir a boca e falei pra ele tirar a mão de mim porque eu não tinha dado essa liberdade pra ele e nem pra ninguém. Ele realmente tirou a mão, mas soltou a seguinte frase: “Sua macaca nojenta! Você acha que alguém aqui vai olhar pra você sua pretinha?”  O engraçado é que quando eu supero a última discriminação (seja ela por eu ser mulher ou por ser negra), a próxima vem de forma pior. Agora eu sou discriminada por ser uma mulher negra. Me segurei até meu namorado chegar, mas quando eu entrei no carro desabei em lágrimas. Eu aguento esse tipo de atitude desde que eu consigo me lembrar, e nem todo dia é fácil levantar a cabeça e sair de casa com esperanças de que hoje vai ser diferente. Porque nunca é.