Cantada 197

197 – “Tenho lido essa pagina há um tempo, e ficado chocada com as coisas postadas aqui. O que eu vou postar agora não é bem uma cantada…  Eu trabalho em uma rua famosa da cidade que tem muito barzinho e balada. Como saio às 22, às vezes aproveito pra ficar em um deles. Um dia, depois de sair do trabalho e ficar uma meia hora em um desses bares, estava indo pro terminal de ônibus com uma amiga. Nós duas estávamos normais, vestidas ‘normais’: eu de jeans e camisa xadrez e ela de jeans e um casaquinho. Vários carros passavam e buzinavam, mas a gente simplesmente fingia que não ouvia e continuávamos conversando. Até que em uma parte mais deserta dessa rua, já longe dos bares e longe do terminal, um carro passou pela gente e reduziu a velocidade. Nós percebemos mas continuamos andando, até que eles passaram de novo e gritaram em alto e bom som “VAI SUAS GORDAS!!” e voltaram à velocidade normal. Minha amiga riu, mas eu me senti tão mal que não tive reação pra fazer nada. A gente nem comentou sobre isso,até hoje. Depois da raiva e da vergonha passada, eu fico pensando: quer dizer que você não ter um corpo dentro desse padrão de beleza ridículo dá o direto de ser ofendida na rua? Porque eles acham que tem o direito de fazerem essas coisas?  Quando eu falo pra alguém, a pessoa sempre ri e fala ‘ah, se fosse chamando de gostosa você não ia ligar”. CLARO QUE IA! Como liguei no dia que eu voltava da escola quando era mais nova, e um cara de moto parou do meu lado pra poder passar a mão no meu peito sem a menor vergonha, e eu fui correndo chorando pra casa. Ligaria do mesmo jeito que ligo quando você sai com uma vestido curto na rua por causa do calor e ouve as coisas mais horríveis, como se tivesse que pedir permissão pra usar uma roupa mais curta. Mulheres não são objetos, e qualquer tipo de assédio é repudiável.”