Cantada 198

198 – “Diferente da maioria das pessoas que compartilham seus relatos, eu já contei o meu algumas vezes. Para alguns amigos que falaram que eu era louca de fazer aquilo, outros que deram risada, e alguns membros da família que não deram a miníma. Poucas as pessoas que se emocionaram comigo e me disseram que eu estava certa em não ficar calada.  Em 2011, com 18 anos, eu pegava trem no horário do almoço e a noite por causa do trabalho. Já enfrentei várias vezes homens que tentaram se aproveitar de mim. As vezes eu falava pro cara parar, as vezes eu só me afastava, as vezes eu não conseguia fazer nada.  Em um dia comum ao pegar o trem a noite, eu estava em pé ao lado de uma menina de uns 15 anos e em frente, uma mulher que estava sentada na ponta do banco. O trem não estava tão cheio, então eu estava a vontade, até que percebi que tinha um homem bem velho atrás de mim, com a mão na minha bunda. Me encolhi e olhei feio pra ele, só que percebi que ele não ligou muito e continuou me encarando. Fiquei com medo e virei. Esqueci por um tempo, coloquei meus fones e fiquei quetinha. Ele não estava me incomodando mais.  Em um certo momento eu virei pra trás e vi que ele estava encoxando a menininha que estava ao meu lado. Me revoltei e fiquei olhando bem feio pra ele. Ele parou, só que continuava me encarando. Falei alto pra ele “Para de me olhar!”. Ele simplesmente deu risada e disse “Não estou fazendo nada com vc.” Respondi alto de novo “Vc estava passando a mão em mim e agora está nessa menina. Tira a mão dela e fica aí no seu canto.” Ele ficou queto. Eu tbm, a menina me olhou tímida.  Depois de um tempo ele encostou na parede, ao lado da mulher que estava sentada na ponta do banco. Eu escolhi não abaixar minha cabeça, apesar do medo, pq ele ficava me encarando. Então eu tive que falar mais umas vezes pra ele parar de me olhar. E ele dizia que não tava fazendo nada comigo. Até que uma hora ele parecia estar se roçando na mulher que estava sentada. Perguntei pra ela dessa vez “Senhora, esse homem está te incomodando?” Ela disse que não. Mas depois eu continuei a observar e percebi que ela olhava com cara feia pra ele. Eu sabia que isso não ajudaria em nada e comecei a gritar com ele, pra ele se afastar dela. E ele continuava a me encarar de uma forma completamente ironica, dizendo “Pq eu to te incomodando? Eu to longe de vc” E eu gritava para ele sair de perto da gente que eu não aceitava isso comigo e nem com outras mulheres. Ele disse que não ia sair. Então, eu quase chorando fiquei gritando no vagão para que algum HOMEM o tirasse de lá. Um homem de uns 40 anos pegou ele pelo braço e colocou pra fora, enquanto ele dizia “Eu nunca fiz isso, viu rapaz”. Eu disse obrigada ao homem e falei alto pra todo mundo ouvir. “EU NÃO ACEITO ISSO!”  As coisas que mais me assustaram nesse acontecimento foi a forma como ele me encarava. Ele provavelmente estava um pouco bêbado. Eu tive muito medo, me senti mto mal por tudo aquilo. Vulnerável, fraca. A forma como ninguém se importava tbm me assustou. Eu praticamente gritava no vagão e as pessoas não demonstravam nenhuma importância. Só me olhavam, como se estivessem assistindo a um espetáculo.  Não me arrependo de ter gritado no meio daquele vagão parecendo louca. Principalmente depois de ver a menina me agradecendo com o olhar, e sorrindo pra mim. Espero ter sido um exemplo pra ela. Mas eu ainda não gosto de pegar trem. Evito horários de pico. Me sinto completamente vulnerável dentro de um trem lotado, de pé.”  J. A.