Cantada 205

205 – Aconteceu no sábado e eu tô inquieta a semana toda por isso. Não consultei ninguém, embora tenha contado pro meu marido e pra uma das minhas melhores amigas. Não tô com medo, nem vim pedir por justiça, mas, preciso falar. No sábado fui ao shopping pra comprar presente de amigo oculto. Tava lotado, lotado mesmo, e, na saída, pra pagar o estacionamento, tinha uma fila enorme. O segurança, pra organizar a fila, começou a empurrar as pessoas, e ajeitar tudo de maneira que não atrapalhasse o movimento do shopping. Ele colocou uma das mãos no meu braço e a outra, ele ENFIOU por baixo da minha blusa, nas costas, na altura do bumbum. Eu olhei pra trás, horrorizada e perguntei, em voz baixa, o que era aquilo, ele disse, com cara de safado: é pra ajeitar a fila, meu bem. Eu disse que tudo bem, mas que ele tirasse a mão de mim, nessa hora meu tom estava um pouco mais alto e algumas pessoas na fila, acho que por não saberem o que acontecia, disseram que eu estava sendo preconceituosa… não entendi porque. Uma das moças na fila disse que eu deveria ter gostado, pq ele era um gatinho… Ele ficou com raiva da minha reação e voltou. Chegou bem perto de mim e disse, sorrindo bem debochado e sibilando: tudo bem, eu tiro a mão, DIZCUPINTÃO. E saiu. Eu olhei pra ele, mostrando que eu tinha entendido o deboche, que eu tinha entendido o tom. Mas eu fiquei imóvel porque senti medo. Eu não consegui fazer NADA porque fiquei com medo. Ser mulher é difícil, e até mesmo a gente acaba achando que fez alguma coisa errada pra merecer esse tipo de tratamento, eu comecei a pensar na hora o que eu tinha feito pra que ele agisse como agiu, comecei imediatamente a me culpar, por, depois de ter sido tocada, ter respondido em tom de defesa… Saí de lá meio sem entender o que tinha acontecido e até agora tô me sentindo assim. O que aconteceu? Porque eu não me defendi? Porque eu me culpei. Eu não li o nome dele no crachá e na verdade, mal conseguia olhá-lo de tão intimidada que me senti. Fiquei com tanto medo que fiquei paralisada. O lugar tava cheio, mas eu me senti sozinha lá com ele. Ele me rondou, olhava de longe pra mim, ameaçador, parecia que tava avisando que poderia ser pior. Ele só olhava pra mim, e eu me sentia cada vez com mais pavor. Fiquei segurando o choro. Meu marido tava no piso de cima com nossa filha e quando eles chegaram eu queria sair de lá correndo, fiquei olhando pra trás, com medo dele vir atrás de mim. Foi muito ruim, uma sensação de impotência dolorida. Eu contei pro meu marido só quando estávamos no carro, e depois não toquei mais no assunto, me senti errada. Depois pensei nos meus filhos, na minha menina, pensei no meu marido feminista, que me apóia em tantas, em incontáveis situações… e é por isso que essa semana, comecei a entender cada vez melhor porque o feminismo tem que ser divulgado e porque é conivente com esse tipo de situação quem acha que o assunto não é com ele, porque as mulheres precisam saber que são fortes , que são iguais e que não vão tomar uma porrada na rua por dizerem não. E é por isso que os homens precisam ser educados pra fugirem dos estereótipos e das mesquinharias. Por isso, todos nós precisamos de instrução, de educação e de respeito. É por isso que precisamos, que devemos nos obrigar a continuar protestando.” ‘Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar…’ Martin Niemöller – 1933 – Símbolo da resistência aos nazistas