Cantada 211

211 – “Olá, envio meu argumento para vocês. Não sei se o texto é grande demais, se será publicado ou não…apenas precisava escrevê-lo.  Gostaria de partilhar algo que me deixou extremamente chateada, hoje. Moro com minha mãe, tia e irmão e desde sempre foi assim. Hoje enquanto almoçávamos, em meio a conversas, expus o que vem sido debatido nesta página, ou seja, a questão dos assédios com os quais nós mulheres temos de lidar quase que diariamente. Ressaltei o quanto me sinto atormentada, especialmente pelo fato de serem absurdas as medidas que nos são ensinadas a tomar: Ignorar tudo e seguir em frente, sempre, pois é melhor agir de tal modo do que sofrer consequências desnecessárias. Disse que já está mais do que na hora de aprendermos a nos defender, não do mesmo jeito como somos afetadas, com ofensas, mas de algum outro modo que faça com que os agressores entendam que ninguém merece ser tratado da forma como estamos “acostumados” a ver e que o problema é justamente esse, estarmos todos “acostumados” a isso. Infelizmente, a resposta que obtive por parte da minha mãe e tia e vejam bem, mulheres que já passaram por isso, não foi a que eu esperava. As duas me aconselharam a “continuar com mesma atitude, pois nunca saberei com que tipo de agressor estarei lidando e que, na verdade, o que eles mais querem é que revidemos, que nos frustremos. Dessa forma, agiremos melhor se apenas não nos nivelarmos da mesma forma, pois a melhor resposta é o desprezo e apenas o desprezo.” Fiquei pasma com a resposta que obtive. Fui ainda, claro, taxada como “jovem inexperiente, pois ainda não entendo como lidar com a situação” (minha mãe já tem os seus 50 e poucos anos e minha tia 70. Tenho 18).  O único que realmente se deu conta do problema, foi o meu irmão, que para o meu mísero alívio, compreendeu. E me amparou.  Infelizmente, não só minha mãe e tia, mas muitos não entendem que: 1- Sofremos o que sofremos porque temos nos “mantidos superiores” à isso desde tempos atrás e continuará da mesma forma se deixarmos que continue. 2- O argumento de que tudo deve “ser ignorado” é claramente falho. Todas sabemos pelo que passamos. Podemos nos esquecer das ofensas, mas jamais no esqueceremos de como nos sentimos.  Para fechar a discussão que tive, foi me questionado algo que parecia mais ou menos com a ideia seguinte: “Me sujeitaria a riscos desnecessários, como uma agressão física ou mais agressões verbais, apenas para me defender?”  É algo para refletirmos, todos. Vejam bem, tempos atrás  homens e mulheres se sujeitavam a riscos desnecessários para merecerem seus direitos que lhes eram negados de inúmeras formas por algum motivo. Independentemente das medidas tomadas, muitos sofreram SIM, muitos morreram SIM. Mas conseguiram, pois caso o contrário, não gozaríamos da cidadania de que gozamos hoje. Atualmente, por vivermos tanto em um século como em um país onde a realidade de nossa liberdade de expressão e outras formas de liberdade são adquiridas facilmente, achamos então que não precisamos “radicalizar” por mais nada, chegando essa ser uma medida extremamente repudiada.  Não sou o enfadonho clichê de jovem revolucionária que deseja “mudar o mundo”. Apenas exijo o respeito que tanto mereço e que, consequentemente, todos merecemos. Seja como mulheres, homens ou apenas como seres humanos que ainda prezam a dignidade pessoal.  E peço por favor: Não menosprezem a questão do assédio e não o comparem com outros problemas a serem resolvidos, pois o desgaste será sempre individual. Dizer se o que sentimos é importante ou não, é uma decisão que só cabe a nós mesmas.  Mas e então, o que faremos? Até onde estaremos dispostos à prosseguir, visando mudanças?”  Bárbara